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Entrevistas

A CONQUISTA DO PRÊMIO EDUCADORES INOVADORES

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

As vencedoras do concurso Educadores Inovadores, na categoria Inovação em Comunidade, Andréa C. Rodrigues e Edilene C. Rodrigues, do Centro Estadual Integrado de Educação Rural de Vila Pavão, no Espírito Santo, concederam uma entrevista ao Instituto comentando a conquista e dando as pistas de um caminho vencedor!

 

Que tipo de incentivo concursos que premiam o uso criativo das tecnologias podem trazer para o professor?

Amamos o nosso trabalho e somos apaixonadas por tecnologia educacional. Acreditamos que o incentivo de concursos que premiam o uso da TIC´s é dar valor e incentivo aos trabalhos desenvolvidos pelos professores que buscam mais dinamismo e participação e interação nas aulas, mostrando o quanto é importante e benéfico o uso das TIC na educação. Procuramos a cada dia melhorar, buscar e aprender continuamente. Acredito que as TIC propiciam não só para nós, mais também aos nossos alunos a expressão de idéias, a produção de conhecimento, a comunicação e a interação social.


As escolas brasileiras estão preparadas para o uso das TICs?

É bem difícil responder a esta questão, pois acreditamos que não basta, somente, montar salas com computadores modernos e com acesso a internet se não possuir professores ou estagiários capacitados para esta utilização. A situação se torna difícil ainda mais em escolas públicas principalmente de zonas rurais, onde são mandados poucos computadores para atender muitos alunos e muitas das vezes estas salas ficam fechadas não tendo os alunos acesso, pois faltam professores e profissionais capacitados.


Qual é o papel desempenhado pelas TICs na Educação Brasileira?

Temos que ter a consciência que a tecnologia apresenta – se como meio, como instrumento para colaborar no desenvolvimento do processo de aprendizagem. Ela tem sua importância como um instrumento significativo para favorecer e fortalecer a aprendizagem, disponibilizando para o aluno informações em tempo real e em grande quantidade. As TIC’s facilitam e ajudam os alunos em diversas atividades, além de favorecer a troca de conhecimentos, mas ela por si só não vai resolver o solucionar o problema educacional do Brasil.


Como os alunos reagem ao participarem de um concurso a nível nacional?

Foi a primeira vez que o CEIER participou de um concurso de nível nacional. Quando os alunos ficaram sabendo que já éramos finalistas a escola toda ficou eufórica com a notícia. Nunca vimos os alunos se desempenharem tanto para ganharmos um concurso. Eles se mobilizaram e saíram pela cidade de Vila Pavão divulgando o concurso e pedindo para que todos votassem no projeto. Até agora, quando nos lembramos da mobilização e esforço deles, ficamos emocionadas, pois eles lutaram bastante para trazerem o prêmio para a escola.


Em relação ao desenvolvimento do Município, uma premiação destas pode favorecer este processo?

Com certeza, mesmo antes de termos ganhado o prêmio, o município de Vila Pavão estava nos dando total apoio e força. Unidos em parceria, a Prefeitura junto com o projeto Campo Sustentável tem como objetivo hoje trazer para Vila Pavão o programa INTERNET PARA TODOS, pois por ser uma cidade de zona rural ela não foi contemplada anteriormente com o acesso à internet. Com a premiação do projeto as expectativas e a justificativa para conseguirmos realizar este sonho, de todos ter acesso a esse meio tão importante, tornou-se mais palpável e concreto.


O que significou a implementação do acesso à Internet para os cidadãos da comunidade?

A implementação do acesso à internet para os cidadãos da comunidade, aos alunos e principalmente para aqueles que residem na zona rural, se justifica no aumento da auto-estima, a valorização do seu trabalho no campo e na produção proporcionando melhoria na qualidade de vida.

PROJETOS DE APRENDIZAGEM EM SANTANA DE PARNAÍBA

terça-feira, 1 de junho de 2010

 

Por que implementar Projetos de Aprendizagem na Escola?

Os projetos de Aprendizagem desenvolvem dinamismo ao ato de aprender e de ensinar, pois facilita a assimilação do conhecimento, onde educando e educador interagem no processo, construindo de forma significativa e contextualizada a sua aprendizagem.

Quais serão os reflexos, em nível de desenvolvimento do Município de Santana de Parnaíba, com a inserção desta nova metodologia nas escolas da região?

Atualmente, a sociedade exige a informatização do aprendiz, assim a oportunidade de parceria com o projeto Escola Conectada e a Secretaria Municipal de Educação, proporciona aos nossos alunos a possibilidade de formação eficaz,  bem como , condições de competir em qualidade ao mercado de trabalho.


Qual é o papel da direção da escola frente ao desenvolvimento dos PA?

A Direção da escola deve estar sempre acompanhando e interagindo com  todos os movimentos do Colégio. Isto não se difere com o desenvolvimento dos Projetos de Aprendizagem, devendo assim, estar orientando e avaliando os reflexos que os projetos proporcionam, com a finalidade de  oferecer a construção do ensino e da aprendizagem com eficiência.


O que significa, para a formação dos jovens, o contato com os PA?

Ao desenvolvermos a construção do conhecimento através dos PAs, favorecemos as oportunidades de assimilação, pois ao levantar questionamentos , os jovens são estimulados a estabelecer pesquisas de campo, onde interagem com diversas opiniões, criando assim hipóteses e conclusões. A partir deste processo, jovens que estabelecem contatos com PA, desenvolvem maiores condições de iniciativa, cooperação, dinamismo, inteligência emocional e cognitiva.

 

Como as Tecnologias Digitais podem auxiliar para o enriquecimento dos PA?

As Tecnologias Digitais podem auxiliar muito no enriquecimento dos PA, bem como, auxilia qualquer outro veículo de construção de conhecimento, pois sabemos que as diversas oportunidades de interações, de informações e experiências apresentadas pelas Tecnologias Digitais, possibilitam o levantamento de questionamento e hipóteses que favorecem e contextualizam a construção do processo de ensino e de aprendizagem de formal eficaz.

 

A SEGURANÇA NA INTERNET

quarta-feira, 28 de abril de 2010

 

 

Tito de Morais é idealizador e coordenador do projeto http://www.MiudosSegurosNa.Net e cedeu uma entrevista ao Portal, a respeito de seu tema de especialidade: A Segurança na Internet.

 

- O que é segurança na Internet?

A segurança na Internet resulta da utilização ética, responsável e segura das tecnologias de informação e comunicação. Ou seja, estamos seguros na Internet quando nós e os outros usam a Internet de uma forma ética, responsável e segura.  No entanto, a segurança na Internet é, de certa forma, uma utopia. Não existe segurança na Internet em sentido absoluto, tal como não existe segurança absoluta em nada, seja na segurança rodoviária, na segurança pessoal e noutras esferas da segurança. Por muito que nos esforcemos, haverá sempre quem use as tecnologias de forma não-ética, de forma irresponsável e de forma não-segura, seja deliberadamente, seja por falta de informação/conhecimento. Por essa razão, o slogan do Projecto MiudosSegurosNa.Net - http://www.MiudosSegurosNa.Net - é "Minimizar Riscos, Maximizar Benefícios".

 

- Bloquear o acesso a redes sociais garante a segurança na Internet?

Não. As redes sociais congregam em si toda uma série de benefícios que é importante serem maximizados por crianças, jovens e adultos. No entanto, esses benefícios andam de mão dada com os riscos. Ao bloquearmos o acesso a redes sociais julgando que estamos garantindo a segurança na Internet, é importante não esquecermos que estamos também  bloqueando o acesso a esses benefícios. E no entanto, não garantimos a segurança pois existem inúmeros outros serviços que podem expor os utilizadores a situações de maior risco. E o que fazemos? Bloqueamos também esses serviços? No meu ponto de vista, não conseguimos garantir a segurança na Internet. O que conseguimos é minimizar os riscos. E isso passa pela adoção de outras abordagens, nomeadamente abordagens parentais, educacionais e legais ou regulamentares e não apenas por abordagens tecnológicas. É que assim como existem ferramentas para bloquear, impedir, proibir, também existem ferramentas para desbloquear, desimpedir, desabilitar, contornar e enganar essas ferramentas de bloqueio.

 

- Como elaborar uma manual de segurança para os seus alunos?

Sinceramente, no meu ponto de vista, nos dias de hoje e sobretudo quando falamos de alunos e de segurança na Internet, o conceito de um "manual" é algo desatualizado. A segurança na Internet é algo dinâmico, em constante mudança, algo que é difícil num "manual" tradicional que estaria desatualizado no momento em que estivesse concluído. Por outro lado, os alunos de hoje, não são os mesmos de há 20, 30 ou 40 anos atrás. Dificilmente aceitam ser meros recipientes de informação, estão habituados a serem atores participativos em processos colaborativos e que conseguem se cativar melhor através da multimídia do que através dos tradicionais manuais. Assim, se me fosse proposto elaborar um manual de segurança para alunos, recorreria aos seguintes meios:

- À participação ativa dos alunos.

- Seria um "manual" online composto por jogos interativos e videoclipes produzidos com e pelos alunos e que poderia ter documentos anexados que servissem de orientação e/ou que complementassem os vídeos

- Estaria em constante atualização e teria uma rede social agregada onde os temas pudessem ser discutidos e desenvolvidos

 

- Como garantir que jovens naveguem com segurança na Internet?

Como já referi, lamento dizê-lo, mas não conseguimos garantir que os jovens naveguem com segurança na Internet. O máximo que conseguimos é reduzir ou minimizar os riscos potenciais a que poderão estar expostos. E isso consegue-se envolvendo as famílias, as escolas e a comunidade em geral na promoção da utilização ética, responsável e segura, assente nos quatro tipos de abordagens a que me referi: abordagens legais/regulamentares, abordagens educacionais, abordagens parentais e abordagens tecnológicas. A conjugação destes quatro tipos de abordagens garante-nos a redundância de soluções para a eventualidade de alguma delas falhar. E se há coisa de que podemos ter a certeza é que alguma delas falhará. Mas quando tal acontecer, não ficaremos "sem rede".

 

- Como falar de Segurança na Internet com seus alunos?

Da minha experiência de falar com milhares de alunos em escolas portuguesas, o ideal é descermos do nosso pedestal de adultos e assumirmos um papel de facilitador que dinamiza uma conversa onde os principais intervenientes são os alunos e onde o adulto, seja ele professor, pai ou encarregado de educação, aja como um mero moderador, suscitando os temas, dando a palavra aos intervenientes e dinamizando o diálogo e o debate entre os jovens. Neste papel, o adulto deverá ser co-adjuvado por um jovem ou grupo de jovens a quem competirá redigir as principais conclusões da conversa.

 

EDUCAÇÃO TERÁ PORCENTAGEM DO PIB

terça-feira, 9 de março de 2010

 

A luta neste ano será pelo porcentual do PIB, sem chance de veto presidencial. E não é torcida, isso já está garantido.

*César Callegari - Sociólogo, presidente do Instituto Brasileiro de Sociologia Aplicada (IBSA), foi deputado estadual, secretário de Educação de Taboão da Serra (SP), e preside a Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação.

 

O sociólogo César Callegari, que preside a Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CNE), alerta para um detalhe para o qual pouca gente na área educacional se deu conta: a Emenda Constitucional nº 59, aprovada no fim do ano passado, obrigará o Presidente da República, pela primeira vez, a fixar um porcentual do Produto Interno Bruto que será destinado à educação. Ou seja: a disputa será pelo valor desse porcentual, não para se evitar um possível veto, como aconteceu no frustrado Plano Nacional de Educação, aprovado em 1990, que fixou um mínimo de 7% do PIB para a educação. Com o veto do então presidente Fernando Henrique Cardoso, o imenso condomínio de boas intenções do plano anterior praticamente ruiu – e quase nenhuma meta foi atingida. Este e outros temas importantes para professores e alunos, que foram ou serão discutidos no âmbito do Conselho Nacional de Educação, como o retorno das disciplinas de Sociologia e Filosofia ao Ensino Médio, são discutidos pelo educador nesta entrevista concedida a Ricardo Prado.

 

Carta Fundamental: O senhor foi autor do parecer do CNE que aprovou o retorno da Filosofia e da Sociologia no Ensino Médio. O que seria, na sua opinião, um currículo mínimo para estas disciplinas?

César Callegari: Tanto no caso da Filosofia quanto no da Sociologia, o que as escolas devem perseguir, na minha opinião, é a formação de bons perguntadores. Quer dizer, o professor deve ter essa preocupação, trazendo, por exemplo, os textos clássicos dessas disciplinas, como apoio ao processo de descoberta e de pesquisa e de questionamento que os alunos vão desenvolver. Não têm sido bem-sucedidas as propostas que começam com uma história da Sociologia e depois massacram os alunos com textos clássicos dessa disciplina. O que se deve perseguir nas aulas de Sociologia, por exemplo, é que os estudantes percebam que eles não são apenas resultados do meio social em que vivem, que isso é um processo histórico de acúmulos e contradições, e que eles também podem ser protagonistas das mudanças sociais. Agora, para que isso aconteça, seria recomendável começar com os próprios ingredientes da realidade na qual essa moçada vive. E a partir desses questionamentos, da apresentação de casos concretos, é que os profissionais e os currículos devem se estruturar, fazendo uso de textos de apoio, de métodos de investigação, das primeiras experiências de tratamento de dados etc. Ensinar e refletir e, sobretudo, pesquisar. Eu acho que esse é o grande objetivo. E a Sociologia particularmente, com as técnicas que lhe são próprias, servirá, inclusive, para vários outros campos do conhecimento. Como você trata a questão da informação, como é que você faz pesquisa? Deixa o pessoal apresentar aquilo que eles entendem que seja uma pesquisa, um referenciamento científico de determinados fatos e acontecimentos e, a partir disso, pode-se trazer as teorias, e não ao contrário, que infelizmente tem sido a prática mais costumeira. É preciso evitar que os meninos comecem a achar essa coisa uma chatice.

 

CF: E haverá profissionais em quantidade suficiente para essas novas vagas?

CC: Este é um caminho longo, porque as escolas têm de formar esses professores, e têm de formar bem. Há muita coisa ainda por se fazer nessa área; falta material didático e faltam professores. Mas o que nós argumentamos no CNE na época em que tudo isso era discutido é que ninguém questiona a necessidade da Matemática no currículo, mas nós temos uma carência de professores de Química, de Física e de Matemática da ordem de 170 mil professores. Só 25% dos professores que ensinam Física, por exemplo, têm habilitação específica para esta disciplina. O problema do déficit dos professores, em termos quantitativos, e da sua inadequada formação, em termos qualitativos, decorre da desvalorização do magistério como opção profissional. Então, muitas medidas ao mesmo tempo devem ser tomadas: valorizar, melhorar as condições de remuneração, condições da carreira e investir muito na formação de profissionais nessa área, inclusive na formação continuada.

 

CF: A aprovação do piso pode contribuir para diminuir esse déficit?

CC: Os dados do MEC mostram que 40% dos professores da Educação Básica brasileira foram impactados pela existência do piso, ou seja, tiveram aumento real de salário. Em algumas regiões do Brasil, sobretudo no Sul e no Sudeste, o piso não tem diretamente tanto impacto em termos de remuneração. Mas há um impacto derivado dele, porque a mesma lei do piso estabeleceu a obrigatoriedade dos sistemas de ensino reverem os planos de carreira do magistério. Não são só os sistemas de ensino que tiveram de fazer alterações na sua estrutura salarial para aplicar aquilo que foi estabelecido pela lei do piso, mas mesmo aqueles que já pagavam o piso não estão desobrigados a fazer uma revisão e uma adequação de seus planos de carreira. Essa segunda obrigação é muito importante e ela impacta positivamente a carreira do magistério, orientando para que sejam estabelecidos nos planos de carreira sistemas de avaliação sistêmica, não só do professor, mas do ambiente em que ele está atuando.

 

CF: Haverá avaliação dos professores nos planos de carreira dos municípios?

CC: A nossa recomendação expressa é que entrem no plano de carreira do professor não somente o tempo de serviço, mas a titulação, o desenvolvimento da formação acadêmica, a titulação acadêmica, além do desempenho do professor e dos alunos. A própria avaliação de desempenho do professor não é assunto fácil. Os sindicatos, com alguma razão, são contra, porque nós todos sabemos que qualquer avaliação pressupõe direitos e deveres. O avaliado, por exemplo, tem o direito de saber o que dele será avaliado e quais serão as consequências dessa avaliação. Quer dizer, é um duplo contrato no qual é dever do avaliador explicitar os seus motivos e métodos. A oposição sindical às avaliações, que às vezes é traduzida como uma expressão de natureza corporativa – e não deixa de ser, porque o sindicato é uma instituição corporativa –, não quer dizer que eles não tenham razão. O importante é que se busquem fórmulas relacionadas às questões de avaliação específicas para cada local. Muitas dessas fórmulas envolvem avaliações sistêmicas, quer dizer, avaliação das condições de trabalho, da política educacional implementada, da chefia, do nível de relacionamento das instituições educacionais com as próprias famílias e as comunidades. Muitas cidades estão propondo que se avaliem os diretores também. Eu acho que isso tem um aspecto positivo porque traz todos a um campo de responsabilidade, cuja essência é a melhoria da qualidade da educação.

 

CF: O Brasil já possui uma cultura avaliativa na educação?

CC: Acho que estamos evoluindo crescentemente. Uma das mais importantes modificações para a educação brasileira é a consciência de parcelas crescentes da população brasileira que não basta colocar as crianças na escola, a escola tem de ter qualidade. Então, mesmo que as pessoas não saibam exatamente o que é qualidade na educação, alguns instrumentos começam a criar marcações a respeito da qualidade. Um deles é a Prova Brasil, que ajuda a compor o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Com o surgimento desses mecanismos de avaliação, setores cada vez maiores da população, principalmente a urbana, vêm adquirindo consciência de que a escola precisa ter qualidade, e essa qualidade não é mais aquela que reivindica uma escola apenas bonitinha, pintadinha, que tenha merenda escolar e que o professor não falte.

 

CF: Falando em qualidade, como está a discussão sobre o custo-aluno-qualidade no Conselho Nacional de Educação?

CC: Estamos ainda em processo de elaboração. Elaboramos um texto de referência sobre a questão do custo-aluno-qualidade que vem sendo discutido nas reuniões regionais preparatórias da Conae (Conferência Nacional de Educação,que acontecerá em março deste ano). Um pouco antes ou um pouco depois dela, vamos preparar uma proposta como diretriz, quer dizer, qual é a recomendação do órgão normativo do Sistema Nacional de Educação a respeito dos ingredientes relacionados à qualidade da escola. Em termos práticos, vai desde a metragem mínima de uma sala de aula até a correlação adequada do número de alunos por professor. Ou seja, definiremos o que é fundamental toda escola ter em termos de material didático, ambientes de laboratório, um conjunto de coisas. A nossa ideia não é fixar em reais um custo-aluno-qualidade inicial, mas fixar uma fórmula para se calcular um custo-aluno-qualidade inicial que seja viável no país inteiro.

 

CF: Em vez de se ter um valor “x”, seria uma fórmula que mudaria de acordo com a região?

CC: Exatamente, porque os insumos têm custos diferentes em cada região; então, não basta criar um padrão de custos que sirva como referência e até como denúncia. O que queremos produzir é uma lista de insumos mínimos relacionados à produção do serviço educacional de qualidade, para que se crie, com o tempo, uma espécie de “lei de responsabilidade educacional”, comprometendo os gestores públicos, prefeitos e secretários de educação a cumprirem essas metas. E o não cumprimento dessas metas significa descumprir a lei, no caso até as leis próprias de planos municipais e estaduais da educação, e esse descumprimento, como a legislação prevê, coloca esses gestores públicos que não alcançarem metas específicas ao alcance da Lei de Improbidade Administrativa. Portanto, ao fim da elaboração obrigatória do Plano Nacional da Educação, poderemos ter essa “lei de responsabilidade educacional”. Lembrando que a Emenda Constitucional nº 59, que foi aprovada em novembro de 2009, pela primeira vez traz a determinação constitucional de que o novo Plano de Educação determine um porcentual do PIB a ser destinado para a manutenção e desenvolvimento do ensino no Brasil. Essa é uma novidade que nem todos perceberam, mas está no texto da emenda constitucional.

 

CF: No Plano Nacional de Educação anterior o porcentual de 7% do PIB foi vetado. Isso, então, não acontecerá novamente?

CC: Agora é impossível que seja vetado, está na emenda já assinada. Você não pode eliminar esse ingrediente do Plano Nacional de Educação porque há uma referência expressa em relação à proporção do Produto Interno Bruto para investimentos na área da educação. Como o novo Plano Nacional da Educação será aprovado em 2010 para vigorar a partir de 2011, os objetivos e metas que ele fixar, inclusive em relação ao porcentual do PIB, valerão a partir de 2011.

 

CF: A educação profissional é um caminho para diminuir os altos índices de evasão no Ensino Médio?

CC: Em termos. Parece que o índice de evasão do sistema Paula Souza, das escolas técnicas de São Paulo, que são gratuitas e de boa qualidade, chega a 40% em vários cursos. Então, não é só a perspectiva de profissionalização que garante que o estudante conclua o Ensino Médio. De qualquer maneira, eu vejo o crescimento da rede de escolas profissionalizantes, em alguns estados, e principalmente pelo governo federal, como muito positivo. Entretanto, esse esforço nunca será suficiente se não criarmos um mecanismo que incentive as empresas a participarem da educação profissional. O Brasil precisaria desenvolver uma legislação, talvez um mecanismo de incentivo fiscal ao desenvolvimento da formação profissional, para que seja possível arrastar o esforço empresarial para essa atividade.

 

CF: O que estará na pauta do Conselho Nacional da Educação neste ano?

CC: Estamos criando as novas diretrizes curriculares nacionais para cada etapa da Educação Básica. Já estão prontas as novas Diretrizes Curriculares da Educação Infantil, que é um belíssimo documento de referência para as escolas de formação de professores, para cada escola de educação infantil e para os gestores de educação. Até maio vamos aprovar, após as audiências públicas, as novas Diretrizes Curriculares do Ensino Fundamental, das quais sou o relator. Até o fim de junho também serão aprovadas as Diretrizes da Educação Profissional e do Ensino Médio, e também da educação nas prisões. Para o segundo semestre, devem entrar na pauta as diretrizes para a Educação de Jovens e Adultos (EJA) e educação indígena.

 

CF: Essas diretrizes serão semelhantes aos Parâmetros Curriculares Nacionais?

CC: Não, são orientações mais gerais, entretanto mais articuladas, porque os parâmetros faziam referências um pouco mais específicas a certos conteúdos. Nas diretrizes nós tratamos da concepção geral de educação dentro de cada etapa, que vai desde a forma como a escola deve se articular com as famílias, a vida em sociedade, e como devem funcionar os sistemas de avaliação de alunos, mesmo na Educação Infantil.

 

CÉSAR CALLEGARI

CALLEGARI, César. O Fundeb e o Financiamento da Educação Pública no Estado de São Paulo (organizador). Editora Aquariana: São Paulo, 2009.

 

 

Fonte: Revista Carta Fundamental, edição número 15, Fevereiro de 2010.

USO DAS TICS NA EDUCAÇÃO

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

 

 

 

IAS - Como a escola pode preparar os indivíduos e a sociedade de forma que eles dominem as tecnologias e possam tirar proveito delas?

 

MÁRCIA SCACHETTI - Estamos vivendo em um mundo onde quem não tem acesso e não faz uso das tecnologias, não está “conectado” ao mundo atual. A cada dia que passa, temos mais novidades e informações via internet, e são inúmeras as formas de facilitar a vida das pessoas com o uso dela. Quem já está acostumado a usá-la, como eu, não fica sem. Pois a praticidade e a rapidez que ela nos oferece em termos de pesquisas e comunicação é maravilhoso. Mas para que isso aconteça de modo geral, abrangendo toda a população, as escolas precisam se organizar, capacitar os professores, pois muitos não dominam essa ferramenta, e oferecer aos “indivíduos” toda a informação necessária, desde como utilizar a internet, suas ferramentas e tudo de bom que ela oferece. Infelizmente muitas crianças e adolescentes não usam a internet de forma saudável e inteligente. E é aí que a escola deve interferir, para que essas crianças aprendam a usá-la da melhor forma possível, respeitando os limites dentro de sua faixa etária e usando-a de forma a desenvolver sua aprendizagem. O uso da tecnologia deve ser inserido na metodologia de ensino diária, fazendo com que o aluno se familiarize com essa ferramenta, através de pesquisas, leituras, produções diversas, de acordo com os meios  oferecidos. Enfim, as formas de utilizá-la em sala de aula são diversas, mas cabe ao professor se familiarizar também ao uso dela.

 

IAS - Como as TICs podem contribuir no desenvolvimento de competências e habilidades necessárias à formação profissional dos jovens no mundo atual?

 

MÁRCIA - Trabalhando com as TICs, os alunos desenvolvem várias habilidades e competências, as quais são de extrema importância para a formação profissional no mundo atual. Utilizando as TICs, os alunos demonstram mais autoconfiança, tem uma visão de futuro mais ampla, e são mais determinados, isso dentro das Competências Pessoais. Em se tratando de Competências Relacionais, eles reconhecem o outro, aprendem a conviver em grupo, a interagir, a se comunicar, a planejar e a tomar decisões. Já quando direcionamos o ensino para a leitura, escrita, cálculo, análise, interpretação, interação crítica com a mídia e o autodidatismo, estamos desenvolvendo as Competências Cognitivas do aluno. E, por fim, quando trabalhamos a criatividade, a produção do conhecimento e sua versatilidade, estamos trabalhando as Competências Produtivas do aluno.

 

IAS - “A capacitação em informação empodera pessoas em todos os seus caminhos da vida para buscar, avaliar, usar e criar informação de forma efetiva e atingir seus objetivos pessoais, sociais, profissionais e educacionais. Isto é um direito fundamental no mundo digital e promove a inclusão social em todas as nações".(Portal UNESCO). Na sua opinião, que habilidades são necessárias para o uso das TICs de forma a acessar, selecionar e interpretar as informações.

 

MÁRCIA - Se a pessoa possuir as habilidades básicas, como saber ler e escrever, saber analisar e interpretar dados e situações, e saber os comandos básicos de como usar as ferramentas da internet, já é o suficiente para poder usar as TICs, pois daí em diante, ela poderá ser autodidata e aprender muito mais, se quiser.

 

IAS - “A aquisição e o compartilhamento do conhecimento passarão cada vez mais a acontecer por meio das tecnologias, afirmaram recentemente os especialistas na área em uma reunião organizada pela UNESCO em Kronberg, Alemanha.”(Portal UNESCO). Diante da afirmação, o que deve a escola fazer para facilitar, motivar e transpor barreiras na aquisição e compartilhamento do conhecimento?

 

MÁRCIA - Toda escola deve proporcionar aos alunos a realização de projetos, envolvendo as tecnologias, em bom uso e funcionamento, é claro. Deve motivar professores e alunos a trabalhar e conviver em grupos, interagindo entre eles e com outros grupos de regiões e culturas diferentes, e por que não de outros países também, por meio da tecnologia, transpondo toda e qualquer barreira na aquisição e compartilhamento do conhecimento. Posso dizer, por experiência própria, que a aquisição de conhecimentos e a interação e o compartilhamento dos mesmos, por meio da tecnologia, é muito mais ampla e gratificante, do que a presencial, pois esta se torna limitada.

 

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Márcia Maria Scachetti – Prof. de Inglês em Salto/SP

NAVEGAÇÃO PROTEGIDA

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

 

 

 

  

 

Educação e Tecnologia  - “A Internet Protegida é um poderoso e eficaz elemento, e não depende de leis, porque são os próprios pais que decidem em quais tipos de sites os filhos não podem navegar.” O que você acha do bloqueio ou acesso com restrições determinadas a internet em instituições ou na própria família?

 

Roberto Prado - Como pai e profissional da área de Tecnologia da Informação reconheço que é muito difícil decidir quais tipos de sites os filhos não podem navegar ou ainda bloquear o acesso, acredito na educação, existem recursos disponíveis no Windows que permitem minimizar o risco de navegação em sites que possuem conteúdo não adequado aos filhos, mas não acredito que isso seja suficiente.  

A segurança não é somente tecnologia, a segurança é acima de tudo educação. Se os pais proíbem os filhos em casa eles podem ter acesso em outros locais como lan-house, iCafe, etc.. ou ainda com a onda de netbooks e notebooks os filhos são os “donos” da máquina e fazem com ela o que querem e quando querem.

Temos o desafio de estar sempre atentos ao tempo de uso, tipos de sites, redes sociais, etc… a tecnologia pode nos ajudar nesse processo mas acredito que o diálogo é a melhor ferramenta, converse com seu filho sobre jogos, jogue com ele, descubra com ele sites e conteúdos que atendam ao grande objetivo do computador pessoal – educação e entretenimento.

 

Educação e Tecnologia  - Quais dicas de proteções básicas  você daria ao navegar na internet?

Roberto Prado - Temos um site voltado para pais, filhos e professores – nosso objetivo é divulgar através desse site informações que ajudem na proteção de famílias e usuários. Seguem abaixo algumas dicas e o link para o site.

http://navegueprotegido.org/default.asp#

 

COMECE PELO SEU COMPUTADOR

1

Atualize seu Sistema Operacional
Certifique-se de ter seu Windows atualizado.

2

Firewall do Windows
Evite que usuários mal-intencionados tenham acesso ao seu computador.

3

Instale um Antivírus:
Proteja seu computador contra vírus, worms e trojans.

4

Escolha senhas seguras:
Aprenda a definir senhas seguras.

5

Faça Back-Up de seus arquivos.
Saiba como manter as informações em seu equipamento a salvo.

6

Proteja seu computador portátil
Conselhos para proteger seu laptop em longas viagens.

7

Conheça as dez leis imutáveis de segurança
Mantenha-se atento para evitar que pessoas mal-intencionadas se apropriem de suas informações pessoais.

 

 

Educação e Tecnologia  - “Navegar protegido é estar num ambiente seguro”. Na sua opinião o que significa um ambiente seguro na internet?

Roberto Prado - Creio que a definição de ambiente seguro pode ser modificada dependendo do ambiente, no caso do usuário doméstico – ambiente seguro deve levar em conta algumas premissas básicas:

  • Sistema Operacional Atualizado
  • Serviços de proteção habilitados (antivirus, firewall, backup, etc..)
  • Senhas seguras
  • Usuários educados e que conheçam o risco a que estamos expostos quando clicamos em mensagens enviadas por desconhecidos com arquivos anexos, etc..

Educação e Tecnologia  - MSN, Orkut, salas de Chat e jogos on-line são os ambientes e ferramentas mais utilizados pelos jovens na Internet. Há regras ou dicas de como navegar seguro nesses ambientes ou ferramentas? 

Roberto Prado - As redes sociais e comunicações instantâneas são de fato muito utilizadas por jovens usuários na Internet – acredito que eles passem a maior parte do tempo com essas ferramentas. O que temos observado, e isso tem sido noticiado em alguns meios de comunicação, é que não se deve compartilhar dados pessoais como número de telefone, endereço, nomes de familiares, etc..  nessas redes.

 

Roberto Prado - Gerente de Estratégias de Mercado - Microsoft Brasil 

BULLYING ESCOLAR

domingo, 13 de dezembro de 2009

 

 

 

 

IAS - Na sua opinião, quais as maiores causas dos casos de bullying dentro da escola? Onde mais esse conflito pode se manifestar?

Geane de Jesus -  O bullying não é um fenômeno novo, na história do estabelecimento das relações humanas é perceptível a presença das ações de opressão e coerção entre os mais fortes e mais fracos, seja física, verbal ou psicologicamente falando. É uma ação que não tem idade, é presente entre os grupos de jovens, crianças e adultos. Nós, humanos agimos pela razão e emoção, e estas duas esferas da nossa personalidade tem bastante influência de formação a partir dos estímulos ambientais e orientações dos contextos em que nos encontramos. Nesse caso, citar um aspecto específico de causa é complicado, mas eu diria que o primeiro ponto de atenção deve ser direcionado à posição que as crianças/jovens assumem diante do outro, ou seja, quando usam a força para conseguir algo, quando sentem certo prazer em oprimir, menosprezar, coagir, também quem assume a condição de vítima deve receber apoio, pois cada organismo pode reagir de forma inesperadamente distinta quando ao logo do tempo é receptor de ameaças, humilhações públicas e/ou silenciosas, seja porque é gordo, magro, portador de necessidades especiais, ou seja, quando é (ou estar) diferente.

Esses conflitos quando não bem resolvidos nos anos iniciais do desenvolvimento do indivíduo podem se perpetuar, pois como já é sabido, toda nossa experiência nos primeiros grupos e relações, ainda na infância, inscrevem-se como um modelo padrão de relação que iremos estabelecer na idade adulta, então é comum percebemos pessoas que assumem a condição de agressor ou de vítima em vários ambientes onde exista relação de mando – obediência, ou de quem estabelece/monitora as regras e de quem tem por função cumpri-las. Nesse caso, é possível perceber tais aspectos em empresas, família, instituições diversas, até mesmo entre diretor-professor, professor-aluno, professor-professor, etc..

IAS - Diante dos seus estudos e pesquisas sobre esse tema, que distúrbios emocionais a criança ou jovem pode desenvolver a partir do bullying? Quais as interferências na construção psicológica dos envolvidos?

Geane - Os envolvidos no bullying podem desenvolver distúrbios distintos, as vítimas, geralmente as mais fragilizadas, por possuírem uma construção egóica deficitária, podem se isolar desenvolvendo fobias sociais, que conduzem ao isolamento, quadros depressivos, síndrome do pânico, ou chegar ao extremo da tolerância, e se revoltar contra seus agressores, e principalmente contra os espectadores, ou seja, aqueles que sabem, mas se omitem. Temos como exemplo as várias reportagens sobre acontecimentos de alunos, com histórico de isolamento, que cometem assassinato coletivo seguido de suicídio em escolas. Já os agressores, perpetuam sua fórmula de sucesso: conseguir tudo pela força ou pela supremacia de seu desejo em detrimento ao outro, são candidatos à delinqüência, a formação de gangues e liderança de puro autoritarismo. São indivíduos que não tiveram controle de seus desejos, muitas vezes, advindos de uma educação de extrema permissividade, ou de uma educação pautada na violência familiar.

IAS -  Uma vez diagnosticada e confirmada uma situação de bullying, que medidas devem ser adotadas, pela escola?

Geane - É necessário que a escola procure pautar suas ações através do diálogo e da informação. Primeiro é preciso formar e informar a comunidade escolar sobre o assunto, desde o porteiro até o auxiliar - administrativo. Depois, é preciso investigar o contexto familiar do agressor, para saber qual o parâmetro de educação que os principais responsáveis utilizam na formação/orientação dos filhos. Conversar/orientar o agressor sobre seus atos em relação ao grupo, a si e às vítimas que elege. E em muitos casos é necessário buscar ajuda de outros segmentos como Conselho Tutelar ou assistência psicológica de orientação familiar. Em relação à vítima, procurar saber quais seus medos e percepção de si em relação ao grupo, e também atentar-se, muitas vezes, para o comportamento que faz com que um aluno se torne vítima, a roupa que está suja, o cabelo que não foi arrumado, (tais questões não justificam a agressão, mas tornam muitas vezes um aluno símbolo de ridicularização) e, é claro, orientar a família. Outro detalhe imprescindível é não ignorar que isso acontece no âmbito escolar, não tolerar a humilhação, coerção, ameaças como bases das relações entre os alunos, por isso é preciso vigiar, observar e desenvolver em seus espaços projetos que promovam debates sobre o assunto, sobre valores importantes que viabilizam a convivência e respeito mútuo entre os indivíduos. Ou seja, transformar os demais em aliados e não em espectadores passivos, que assistem a tudo e não se manifestam e, muitas vezes, instigam à agressão. Mas só é possível tal ação se a escola também estiver pautada nesses valores, então, como sempre reafirmo, não vale a prática do “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”!

IAS -  Artes marciais, filmes violentos e  videogames, podem influenciar a criança e o jovem a prática agressiva, funcionando como motores do bullying?

Geane - A base de solidez de um bom caráter, ainda é a boa educação, é claro que hoje, no campo da psiquiatria existem muitas discussões sobre até onde vai o alcance da influência hereditária em relação aos estímulos ambientais. Porém, enquanto não chegam a um consenso, vale pautar-nos pelo que presenciamos em nossas escolas. Em meus 14 anos de educação escolar, percebo a necessidade de que as crianças/jovens estejam sob um olhar “competente” para lhe orientar em relação aos excessos de estímulos diversos que lhe são oferecidos pelo “mundo”. Nesse caso, o olhar competente pressupõe um mediador que não tenha problemas de conduta social, caso isso ocorra, que referência essa criança terá? Por isso, tais atividades, podem sim estimular um quadro de bullying, quando não supervisionados por um adulto responsável. Pois, seja em qualquer classe social, não são apenas jogos, filmes, que possivelmente causam tal transtorno, porém também o dia - a - dia na família, um carinho que não recebe, um sinal de segurança, um vínculo de afeto que não existe do filho com o pai e/ou mãe. Vivemos em uma sociedade em que os sentimentos, o autoconhecimento não são valorizados. As pessoas vivem a partir dos seus anseios querendo a todo instante mostrar superação da razão, mas irracionalmente não se doam, não sabem dar, nem receber afeto.

IAS -  É possível traçar o perfil de um potencial agressor e de um potencial agredido? Como detectar e tratar o distúrbio?

Geane - As pesquisas apontam três envolvidos no bullying: a vítima, o agressor e os espectadores. A vítima, geralmente são indivíduos cabisbaixos, com autoestima comprometida, não conversam muito, são tímidos, ou seja, sobressaem-se de alguma maneira: o biótipo físico que não se encaixa nos malditos padrões (gordo, magro, deficiente, míope, etc.) ou quando são muito inteligentes, estilo nerds, ou quando são desleixados na aparência e/ou higiene (devido falta de atenção da família). Por terem consciência da sua dificuldade de adaptação social e de não se aceitarem a partir de sua diferença, eles se isolam, e se fragilizam diante do outro.

O agressor usa de violência física, verbal e psicológica para impor sua vontade, exercem liderança num grupo, geralmente é o deflagrador de confusões, tumultos e humilhação de outrem. Nem sempre gostam de ser contrariado, vão de encontro às regras propostas e não são adeptos ao estudo, mesmo que, às vezes, apresentem bom desempenho cognitivo.

Os espectadores, são os que vêem a tudo, acompanham as investidas de agressão, mas não denunciam, nem tomam partido de defesa, muitos inclusive, chegam a incitar a ação do agressor. Alguns se omitem por medo de ser a próxima vítima, outros por não terem muito bem definido o seu papel enquanto partícipe num grupo social. Outros ainda, porque gostam de fazer parte do grupo mais “forte”, porém não tem tanto espírito de liderança para desencadear e sustentar uma agressão então fazem coro ao grupo do agressor.

Em relação a tratamentos possíveis, tanto o agressor quanto a vítima, precisam de acompanhamento de orientação educacional, na escola, e tratamento psicológico. A vítima para fortalecimento do seu ego ao superar o elemento em sua psiquê que gera a sua autonegação o que refletirá na elevação da sua autoestima. O agressor precisa de sublimação de toda a violência que emana de suas ações, para tanto é preciso diagnosticar os causadores de tal inclinação, partindo disso trabalhar a construção do ego desse indivíduo. A família de ambas as partes precisa do mesmo suporte.

Os espectadores precisam de orientação e acompanhamento em relação aos seus atos e responsabilidades sociais, o que pode ser gerenciado por projetos direcionados na escola, ou grupo de apoio e orientação educacional.

Todas essas ações requerem articulação entre escola e outros segmentos como conselho escolar, acompanhamento de orientação educacional e suporte psicológico e/ou psicopedagógico.

IAS - A escola tem como desenvolver ações preventivas contra o bullying? Se sim, como seriam essas ações?

Geane - Em síntese do que já informei aqui na questão três, a escola deve ter total ciência de quais valores e missão respaldam seu projeto pedagógico. Depois, viabilizar (in) formação aos educadores, demais servidores da escola e pais. Estas formações podem ser palestras com profissionais da área da saúde como psicólogos, psiquiatras, ou educador -pesquisador que tenha dados reais sobre o assunto, para alertar sobre a situação. Isso porque, dentro da minha experiência percebo que os profissionais da educação se assustam quando “aquela simples brincadeira” entre grupos é sinalizada como bullying que hoje é fonte de preocupação no campo da saúde mental e social. Reuniões temáticas com pais, sobre educação e limites. Ou caso não tenham tais recurso, propor grupos de estudo/discussão dentro da escola, pois há referência bibliográfica disponível sobre o assunto.  Projetos ou miniprojetos no espaço escolar sobre valores como: respeito mútuo, paz, tolerância, ser diferente, etc. Oficinas, teatro, ações que permitam aos alunos exporem seus medos, suas opiniões sobre o assunto, como uma espécie de terapia ocupacional, ou seja, transformar os alunos em aliados contra esse mal. Monitorar os vários espaços da escola, mesmo fora dos intervalos entre as aulas. E se policiar em termos de ações, tendo cuidado, por exemplo, com a forma como um professor se dirige a um aluno, evitando apelidos, termos de menosprezo, etc., pois o professor é quem está na linha de frente, quem estabelece contato direto com o aluno e, muitas vezes por falta de cuidado com essa questão, o aluno teme conversar com o professor e prefere se calar.

 

 

Geane de Jesus Silva,
Pedagoga, psicopedagoga, psicanalista, professora da rede pública do DF.
Endereço eletrônico: enaeg@hotmail.com



O ESPORTE COMO VIA PARA O DESENVOLVIMENTO HUMANO

domingo, 6 de dezembro de 2009

  

 

IAS - A Educação pelo Esporte possibilita desenvolver o potencial dos jovens apenas na área do esporte ou contempla o desenvolvimento de outras competências? Como?

Cléo - Toda a filosofia que embasou a construção da Educação pelo Esporte enquanto uma solução em educação para o DH e todo o conjunto de princípios, valores e técnicas que embasa até hoje o trabalho dos envolvidos foi calcada nos 4 pilares da educação (Relatório Jacques Delors - UNESCO, “Educação um Tesouro a Descobrir”); o caminho que percorremos junto desses parceiros - universidades espalhadas por todo Brasil, locais onde são desenvolvidos os projetos que refletem a prática concreta do trabalho - nos permitiu, então, (e isso ocorreu com todos os outros programas do Instituto Ayrton Senna) a tradução destes pilares em desenvolvimento real de competências para vida (sociais, cognitivas, produtivas e pessoais). Assim foi se tornando claro, ao longo dos anos, o papel educativo assumido pelo esporte quando vestido com características e princípios inerentes ao Programa. Isso apenas como uma introdução para que possamos responder às perguntas. A Educação pelo Esporte contempla o desenvolvimento de todas essas competências, e aos poucos, ao longo dessa conversa, vamos poder concretizar isso por meio de exemplos reais da nossa prática.

Vamos partir daqui: o Esporte entendido como meio para educação, e não só como fim em si mesmo (como às vezes o entendimento comum nos força a abordar, até pelo poder que a mídia exerce em todos nós no que se refere ao Esporte). O objetivo do trabalho do IAS ao lado desses parceiros (hoje distribuídos em 14 núcleos/universidades, em 12 estados diferentes) sempre foi ir além, fazer do esporte o caminho e a ferramenta para que crianças e jovens pudessem ganhar a oportunidade da qual precisam para desenvolver seus potenciais. O esporte tem um poder transformador inegável, mesmo quando trabalhado no âmbito do rendimento, de competição. Aqui, além disso, ele tem o poder de desenvolver competências para vida, transformando crianças e jovens em indivíduos e cidadãos mais realizados em sua plenitude, e não só sob o ponto de vista físico, corporal. Essa é uma certeza que resulta de avaliação de resultados, amplamente realizada no Programa (desde 1998).

Concretamente, podemos dizer o seguinte: 1. como o a Educação pelo Esporte promove o desenvolvimento de competências sociais? Ela trabalha a solidariedade, a cooperação e o respeito ao outro e ao meio (por isso se diz do esporte ser promotor da paz); 2. como ela trabalha as competências pessoais? O esporte é promotor da realização individual, porque no momento em que amalgama corpo e pensamento, exige-se uma resposta integrada entre corpo, mente e emoção, e isso é um espaço para a promoção do autoconhecimento; 3. como desenvolve competências produtivas? O Esporte funciona como catalisador da criatividade e da capacidade de trabalhar em grupo; 4. por fim, como desenvolve competências cognitivas? Ele promove um salto natural para as questões ligadas à cultura, à regionalidade e às questões sociais e daí para a importância da leitura e da escrita, por exemplo, é um passo que se realiza de forma lógica e harmônica.

 

 IAS - No Brasil, podemos encontrar alguns atletas expoentes que conseguiram, através do esporte, sair da condição de pobreza em que nasceram. Você acredita que para que isso aconteça, o jovem deve ter um dom especial ou é possível que o esporte crie oportunidades para todos?

Cléo - É importante pensarmos o seguinte: quantos, dos milhões de meninos que jogam seu futebolzinho em campos de várzea por esse Brasil afora, têm realmente chances de se transformar em um Ronaldinho Gaúcho? Imagine se sempre vinculássemos o sucesso da vida de alguém ao tipo de sucesso conquistado pelo Ronaldinho? Será que é só assim que o esporte exerce seu poder transformador? Será que o esporte só promove transformação social quando coloca o indivíduo de talento quase genial no mundo do esporte de competição, quando transforma em estrela um indivíduo? É claro que isso é mágico, e é claro que pode acontecer (como já aconteceu) em um projeto social que trabalha dentro da filosofia da educação pelo esporte. Mas essa não é a regra, e por isso não podemos partir dela como preceito. O esporte que transforma não é só esse. O esporte pode também transformar a vida de um indivíduo no momento em que ele é vítima do desenvolvimento de competências que o apoiaram em toda vida, no momento em que isso fez com que seu desempenho na escola fosse melhor, na hora em que ele sonha e se projeta como alguém que quer e pode entrar para faculdade, por exemplo, ou no momento em que ele sonha em ser médico, dentista, professor etc. É esse o esporte inclusivo, que independe das habilidades motoras desse ou daquele para se transformar num campeão olímpico. E é essa a nossa regra. O garoto ou garota que despontam como estrelas, aqueles nascidos para o esporte, têm seu espaço. Mas todos os outros também têm.

 

IAS - Que valores podem ser trabalhados através do esporte para que tenhamos jovens autônomos, solidários, competentes e responsáveis?

Eduardo - As atividades esportivas mobilizam todas as dimensões do ser humano de forma integrada (psicomotora, cognitiva, emocional) e por isso se constituem numa via privilegiada para o desenvolvimento de competências. As escolhas e decisões tomadas durante a prática esportiva expressam os valores daqueles nelas envolvidos, dando ao educador o ensejo para o trabalho de valores de forma contextualizada, facilitando a reflexão sobre esses mesmos valores, a sua vivência e a sua adoção. Mais do que orientar a criança a adotar um determinado valor (respeito, solidariedade, perseverança etc) é preciso que as crianças localizem esse valor nas atividades e reflitam sobre a sua prática para, em seguida, perceber a necessidade de adotá-la, transpondo-a para seus vários âmbitos de vida (familiar, escolar, grupo de amigos etc).

 

IAS - Como é trabalhada a questão da competição?

Eduardo - A ação educativa está diretamente ligada aos princípios e aos valores daqueles que a executam. Pensando assim, a competição pode ser um ingrediente bastante pedagógico quando se é priorizado o desenvolvimento de cada um dos praticantes. Além do que, não há como negar a competição quando se trabalha com o esporte. No Programa, a auto referência e o progresso individual são os critérios utilizados para a avaliação - superar a si mesmo -, e não restringindo somente a vitória (resultado final) como critério de sucesso - superar o adversário. E, na competição, inserida neste ambiente educativo mencionado anteriormente, abre-se a possibilidade de discutir e refletir sobre questões importantes para o amadurecimento dos educandos tais como a tolerância, a frustração, a perseverança e a alegria da vitória.

 

IAS - Como são criadas oportunidades de aprendizagem dentro do Programa Educação pelo Esporte, do IAS e da Audi?

Eduardo - Toda ação educativa para ser, de fato, efetiva, deve ter intencionalidade. Assim, para criar oportunidades de aprendizagem dentro do Programa, tudo deve começar no planejamento. Nos projetos parceiros, o momento de planejamento é institucionalizado, o que garante que todos os educadores, num dia da semana, parem para refletir a sua prática, discutir as demandas do grupo e planejar soluções. Por exemplo: se os educandos apresentam dificuldades em ver a importância das regras para um bom convívio/andamento da atividade, que tal propor uma partida de queimada sem, ou com poucas, regras? Para se trabalhar a importância do papel de cada um num grupo, que tal discutir e combinar as regras do jogo? Para se trabalhar resolução de problemas, que tal sugerir que os educandos proponham esquemas táticos para a partida? Neste espaço educativo o educador é o mediador do processo de aprendizagem, cabe a ele ter a sensibilidade e o “jogo de cintura” para identificar temas que despertem nos educandos a vontade de aprender.

Outras oportunidades de aprendizagens, agora, num âmbito mais macro, criadas dentro do Programa, são: as formações na solução em Educação pelo Esporte, ministradas por agentes credenciados pelo IAS, as trocas de experiências e textos por intermédio do site e da revista “Campeão de Cidadania”, os Encontros de Educadores, organizados regionalmente pelos nossos parceiros, ou nacionalmente pela coordenação no IAS. E tudo isso sempre com a participação da Audi (que acompanha a construção do Plano de Ação do Programa para o ano) e como intuito de dialogar o esporte como ferramenta de desenvolvimento humano.

 

IAS - Você acha que a Copa do Mundo pode influenciar, positiva ou negativamente, no entendimento do esporte como ferramenta de promoção de desenvolvimento humano e social? Por quê?

Cléo - Essa pergunta é muito boa. Primeiro porque nos permite a retomada das questões abordadas na primeira questão e segundo porque com ela podemos dar mais concretude ao nosso discurso até aqui.

Primeiro é importante falarmos um pouco sobre a questão das diferentes modalidades esportivas disponíveis para um trabalho de Educação pelo Esporte. Muitas vezes nos perguntam: quais são as modalidades que os projetos utilizam com as crianças? E muitas vezes a melhor resposta é: qualquer uma. Afinal, como se decide se esta ou aquela modalidade servirá de palco para o trabalho? A definição pode surgir em função da própria demanda dos educandos, pode também vir como resultado de um tema trabalhado no projeto interdisciplinar* planejado para aquele período, ou pode ainda ser resultado de disponibilidade de equipamentos, material e espaço (que não precisam ser oficiais, pois se trabalha muito com jogos e materiais adaptados, tais como um futebol com 4 gols ou uma espada confeccionada a partir de um cabide para a criançada conhecer a esgrima!). O princípio por trás dessas decisões (sobre qual modalidade deve ser escolhida) é que é o principal: quanto mais modalidades se apresentarem para as crianças, melhor. Isso democratiza o espaço. Dar para as crianças e jovens a chance de conhecerem esporte, saberem sobre esporte, também é um dos objetivos do Programa.

Isso posto, caímos então no futebol e na Copa do Mundo. Não há como negar que o futebol é o esporte mais popular, mais ligado à cultura e a história do povo brasileiro. Além disso, a Copa do Mundo em si é um mar de oportunidades para o trabalho com projetos interdisciplinares. A partir dela pode-se criar uma gama quase infinita de temas, tais como: que nações são essas que participam das copas, onde nasceu o futebol, o que é Fair Play, etc.

Muitos projetos se utilizam da mobilização e entusiasmo provocados pela Copa do Mundo para desenvolver atividades esportivas ligadas ao futebol. O objetivo é fazer da modalidade um instrumento para estimular o trabalho em grupo, a criatividade, a cooperação, o respeito dentro da sala de aula para melhorar o desempenho escolar. As competências, enfim.

O futebol é uma modalidade que consegue reunir todos esses aspectos. Podem-se fazer várias correlações entre o jogo e o dia-a-dia das crianças, por exemplo. Como? A autoridade do árbitro: pode ser comparada às leis que precisam ser cumpridas na nossa sociedade. O capitão da equipe, que deve ser ouvido e respeitado: se comparam aos nossos pais, avós, tios e irmãos. A delimitação do espaço: desenvolve no aluno noções de matemática e geometria. Até questões de agressividade: o futebol pode oferecer formas saudáveis de resolução de conflitos. A Copa do Mundo é um prato cheio enquanto tema gerador de projetos interdisciplinares. Permite aos educadores um jeito diferente para estimular o gosto pela leitura, por exemplo - as crianças podem ser solicitadas a pesquisar sobre a história dos jogadores da seleção brasileira, um tema super estimulante.

Uma das atividades mais ricas para explicar como se trabalha o futebol com o olhar da Educação pelo Esporte é Jogo da Vida, criado pelo Projeto Córrego Bandeira, nosso parceiro na UFMS - Campo Grande. Nele trabalha-se muito a questão dos valores, relacionando-os ao futebol. Antes dos alunos jogarem uma partida real, é feito um jogo de tabuleiro. As crianças são solicitadas a fazerem a escalação das suas seleções, mas ao invés de escolher dentre nomes verdadeiros de jogadores, elas escalam os valores que querem colocar em campo: honestidade, justiça, honra, respeito, amizade, entre outros. Daí, cada grupo dispõe esses valores no tabuleiro (que é um campo de futebol) e podem escolher também a sua estratégia tática - por que a justiça na defesa? Por que a honestidade no meio de campo? E assim por diante. Feito isso, e após uma discussão com os educadores, as crianças decidem se vão querer o futebol tradicional ou se vão querer criar um jogo novo. Diferentemente do trabalho tradicional realizado em esporte, onde vencer é o principal objetivo, todos os projetos que integram o Programa não têm a competição como foco central. É muito melhor promover a participação de todos que a competição em si. Tendo isso como princípio, os alunos criaram o Futepar: uma nova modalidade esportiva baseada no futebol. Nela, as crianças confeccionaram camisetas com espaço para duas cabeças e mangas largas o suficiente para que possam jogar em dupla. Os tradicionais 22 jogadores transformaram-se em 44. Os próprios alunos construíram as novas regras. Além do jogo ser muito divertido, existem vários conceitos que são trabalhados, como respeitar o ritmo do colega, aprender a dividir o mesmo espaço e superar dificuldades.

Assim como o Futepar, existem inúmeros outros jogos criados ao longo dos anos, com os mais diferentes tipos de modalidades. Mas vale lembrar: o futebol convencional, com os 22 jogadores, os 45 minutos de cada tempo, escanteios e laterais, também é trabalhado. Nesse caso, qual a diferença desse jogo no Programa e em qualquer outro lugar? O papel do educador.

É o educador, formado dentro da Educação pelo Esporte, quem carrega em quadra, em campo o maior diferencial do Programa. É ele a principal peça para que um projeto voltado ao esporte promova o efetivo desenvolvimento das pessoas. É no educador que está todo o poder de transformar uma atividade em algo que, de fato, transforme potenciais em realidade. O início e o fechamento de uma atividade - seja ela um jogo, uma brincadeira, a vivência de uma modalidade esportiva com todas as suas regras ou adaptada - é que dão a ela o caráter da educação pelo esporte.

 

*Nota: um dos princípios da Educação pelo Esporte é o trabalho por projetos interdisciplinares. Por meio deles é que se torna possível agregar os diferentes profissionais envolvidos nos projetos, que vêm em sua maioria da Educação Física, mas também de outras áreas de conhecimento (graças à parceria com a universidade), tais como a Arte, a Saúde (Psicologia, Medicina, Odontologia etc), a Pedagogia, entre outras.

Nota 2: o livro Educação pelo Esporte - Educação pelo Esporte para o Desenvolvimento Humano - Editora Saraiva, traz inúmeros exemplos de atividades e intercala a teoria e a prática desse trabalho de forma a ajudar aqueles que quiserem apostar nessa solução em Educação.

 

Eduardo Hissayasu e Cléo Tibério Araújo

 

Para mais informações sobre o Programa Educação pelo Esporte, acesse :

www.educacaopeloesporte.org.br

ENSINO SUPERIOR E E-LEARNING: PARCERIA PROMISSORA – Lenise Garcia

domingo, 29 de novembro de 2009

 

Professora da Universidade de Brasília (UnB), especialista em microbiologia

  

Quando o departamento de Biologia da Universidade de Brasília (UnB) ofereceu um curso de Educação Ambiental à distância, em 2003, a professora responsável pela disciplina, Lenise Garcia, sabia que estava à frente de um desafio.Como um dos precursores em e-learning em universidades brasileiras, o programa certamente enfrentaria preconceito de alunos e da própria classe acadêmica, acostumada com o ensino tradicional.

 

Isso, porém, não foi o suficiente para afastar os estudantes, que responderam à proposta com mais de 150 pedidos de matrícula, nem do corpo docente, que viu com otimismo a nova modalidade de ensino-aprendizagem.

Na entrevista a seguir, Lenise Garcia, também integrante do Fórum de Líderes Educacionais da Microsoft, fala sobre sua experiência e traça um panorama da educação à distância nos programas de graduação e pós-graduação no país.

Lenise admite que, apesar dos esforços na área, ainda há muito a ser explorado. “É muito importante que busquemos um crescimento em colaboração uns com os outros e que não tenhamos medo de experimentar”, observa.

Confira a seguir a entrevista com a educadora.


1 - Como professora de uma das primeiras disciplinas realizadas à distância pela Universidade de Brasília (UnB) - Educação Ambiental Sustentável - quais são os desafios e dificuldades que a senhora vem enfrentando?


Lenise Garcia -
Eu diria que temos dois tipos de desafios: os técnicos e os comportamentais. Na parte técnica, ainda há bastante a evoluir na área de ambientes virtuais de aprendizagem que facilitem realmente a interação. No comportamental, temos que desenvolver, tanto os alunos como os professores, as atitudes e as competências adequadas para essa nova modalidade.

Outro desafio é a superação de preconceitos. Por exemplo, há alunos que se matriculam na disciplina pensando que terão pouco trabalho, que serão créditos adquiridos “de graça”. Estes não demoram a perceber que estavam enganados e alguns desistem. Outros superam este pensamento inicial e passam a ter maior dedicação, obtendo um bom desempenho.


2 - Como é feita a avaliação?


Lenise Garcia -
Parte da avaliação é feita à distância e parte é presencial. Para a avaliação à distância, levo em conta o desempenho do aluno nas discussões nos fóruns e suas anotações no diário. Há também o desenvolvimento de um trabalho em grupo, que é entregue escrito e é apresentado em seminário na última fase presencial. Considero mais fácil avaliar o aluno à distância, especialmente quando se faz uso da aprendizagem colaborativa, que é o meu caso. A interação permanente é bem maior do que a que costuma ocorrer em disciplinas presenciais, sendo possível ter uma noção bastante precisa do desempenho do aluno, seus conhecimentos, potencialidades e dificuldades.

3 - Qual deve ser a postura do aluno que realiza uma disciplina de graduação à distância?


Lenise Garcia -
Muito ativa e de protagonismo quanto à sua aprendizagem. Vou destacar dois aspectos fundamentais: primeiro, a organização do tempo. É preciso que se dedique tempo ao estudo e às várias atividades da disciplina. Como não há um horário definido, é preciso que o aluno se programe. Outro ponto fundamental é a disposição para a troca de idéias com o grupo, quando se usa aprendizagem colaborativa. Aprender a debater, com fundamentação, sem “achismos” e com respeito à diversidade de opiniões, colaborando para a aprendizagem de todos.

4 - Como a classe acadêmica está vendo este tipo de ensino?


Lenise Garcia -
Existe bastante diversidade, mas penso que cada vez mais os professores se abrem para a educação à distância. Está crescendo muito, também, o uso de ambientes de aprendizagem como apoio às disciplinas presenciais. O professor que começa a fazer isso vai gradualmente percebendo as potencialidades.

5 - Quais cuidados os alunos devem ter ao escolher um programa de graduação à distância?


Lenise Garcia -
O primeiro passo é verificar como está o reconhecimento do curso pelo MEC, ou se está autorizado. Isso evita possíveis surpresas posteriores. Depois, verificar os antecedentes da instituição que está ofertando o curso, a sua qualidade.

Um aspecto muito importante é a tutoria, como se dá o acompanhamento ao aluno. Cursos sem tutor, ou com um tutor para cada 1.000 alunos não são cursos, são material disponível na rede, ou pacote de livros, ou CD-ROM. Todas essas coisas podem fazer parte de um curso, mas não ser “o curso” em si. O aluno também precisa olhar para si mesmo, e perguntar-se se tem real interesse, disposição e tempo para fazer esse curso, sabendo que terá que se dedicar a ele, se for de qualidade, tanto como teria se fosse um curso tradicional.

 

6 - O que falta para a plena utilização de disciplinas à distância em universidades brasileiras?


Lenise Garcia -
Ainda há preconceito, embora venha sendo gradualmente superado. Há também falta de um preparo adequado. Quase todos os que atuamos em educação à distância somos autodidatas ou tivemos um aprendizado real, mas informal, com a colaboração de outros.

Não penso que isso seja ruim, acho até que está ligado às características da própria educação à distância, ou das formas mais atuais de aprendizagem, menos ligadas a estruturas rígidas.

É muito importante também que troquemos experiências, que busquemos um crescimento em colaboração uns com os outros, que não tenhamos medo de experimentar e, com espírito acadêmico, submeter essas experiências ao estudo e à crítica.

Microsoft Brasil: contribuições para a educação à distância

Consciente da importância da troca de experiências na educação à distância, a Microsoft Brasil vem contribuindo com importantes programas educacionais e debates na área, buscando o crescimento pessoal e profissional de alunos e professores.

As iniciativas de sucesso incluem a parceria com o curso de pós-graduação em Educação: Currículo da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e a Secretaria de Estado da Educação de São Paulo, que resultou na criação do Programa Gestão Escolar e Tecnologias em 2004.

O programa, que auxilia gestores escolares no uso integrado das tecnologias da informação e comunicação (TICs), alterna fases presenciais e à distância e tem duração de quatro meses.

Também com etapas presenciais e à distância, o Programa Aprender em Parceria procura estabelecer um ambiente colaborativo entre professores, para que em pares possam desenvolver suas habilidades e aprimorar seus conhecimentos em tecnologia. Outro destaque é o Programa Microsoft IT Academy que busca ajudar instituições que ofereçam cursos técnicos a se transformarem em referência na formação de profissionais de tecnologia. Por meio de assinaturas renováveis anualmente, alunos e professores têm a oportunidade de participar de treinamentos e certificados. Além de desenvolver todos estes programas, a Microsoft procura fomentar debates sobre inovações da tecnologia educacional em universidades, apoiando e participando de congressos nacionais e internacionais.



Entrevista publicada no site da Microsoft Brasil - Agosto de 2005
www.microsoft.com/brasil/educacao

 

EDUCAÇÃO INOVADORA: DESAFIOS DE IMPLEMENTAÇÃO COMO POLÍTICA PÚBLICA - Eliana Maria da Cruz Silva

domingo, 22 de novembro de 2009

Considerações sobre o desafio na implementação, como política pública, de uma nova Educação.

IAS- O município de Santana de Parnaíba vem investindo na implementação, como política pública, de uma nova educação. Quais os principais desafios enfrentados pela Secretaria da Educação nesse processo?

 

Eliana Cruz - Entendendo-se por Políticas Públicas as ações coletivas voltadas para a garantia dos direitos sociais e a transformação daquilo que é do âmbito privado em ações coletivas no espaço público. A implementação de uma nova Educação, como política pública, de forma geral, exige novas posturas e adaptações para garantia de realização. Quando se fala em mudança na educação, necessita-se reunir vários elementos que a caracterizem como necessária e apropriada para seu meio social.

 

Entre alguns elementos estão: o pluralismo – com atividades que gerem maior respeito à diversidade na educação – a sustentabilidade – para iniciativas que abordem e contribuam, assim, para a criação de sociedades globais sustentáveis – e inovação – para práticas educacionais que explorem as novas tecnologias da informação e da comunicação em prol do acesso e intercâmbio de conteúdos educacionais. 

 

Isto posto, colocamos que os desafios enfrentados pela Secretaria Municipal da Educação nesse processo está somente na dificuldade de caracterizar a mudança como algo instantâneo, já que ela só acontece como processo e atrelada a vários elementos.

 

IAS - Que estratégias estão sendo criadas para superar esses desafios?

 

Eliana Cruz - Como estratégia a Educação Municipal de Santana de Parnaíba tem buscado constantemente  procurado criar estratégias por meio de parcerias, projetos e programas de formação e de desenvolvimento educativos, para então desempenhar sua função sócio-educacional de fato, de forma rápida e competente.

 

IAS - Com base nos indicadores de avaliação, que mudanças estão acontecendo nas escolas do município de Santana de Parnaíba com a implementação do Programa Escola Conectada que adota a metodologia de Projetos de Aprendizagem (PAs) com uso da tecnologia?

 

Eliana Cruz - As mudanças que têm acontecido nos Colégios Municipais de Santana de Parnaíba, participantes do Programa Escola Conectada, condizem em novas habilidades e formações que originaram numa necessidade de reais e práticas mudanças. O evento dos Projetos de Aprendizagem (PAs), tem trazido consigo a mudança do paradigma de conhecimento, de tempo e ainda, a possibilidade de apropriar-se de uma ferramenta que leva a um mundo renovado, virtual e real ao mesmo tempo. Isto tem colaborado para a tomada de consciência quanto à necessidade da mudança dentro de uma nova comunidade educacional.

IAS - Na sua opinião, como o Programa Escola Conectada tem impactado em sala de aula?

Eliana Cruz - O Programa Escola Conectada como uma nova forma de interação no processo educativo amplia a ação de comunicação entre aluno e professor e o intercâmbio educacional e cultural. Desta forma, o ato de educar com o auxílio deste programa, proporciona a quebra de barreiras, de fronteiras e remove o isolamento da sala de aula, acelerando a autonomia da aprendizagem dos alunos em seus próprios ritmos. Assim, a educação pode assumir um caráter coletivo e tornar-se acessível a todos. No processo de ensino-aprendizagem, destaca-se a maneira como esses computadores são utilizados, quanto à originalidade, à criatividade, à inovação, que serão empregadas em cada sala de aula. Para o trabalho direto com essa geração, que anseia muito ter um “contato” direto com as máquinas, é necessário também um novo tipo de profissional de ensino. Esse nosso profissional tem sido, não  apenas reprodutor de conhecimento já estabelecido, mas  também alguém voltado ao uso dessas novas tecnologias. A utilização da Internet leva-nos a acreditar numa nova dimensão qualitativa para o ensino, através da qual se coloca o ato educativo voltado para a visão cooperativa. Além do que, o uso das redes traz à prática pedagógica um ambiente atrativo, onde o aluno e o educador se tornam capazes, através da auto-aprendizagem.

IAS -  Uma vez que o Programa Escola Conectada tem como via o uso da tecnologia digital, como a Secretaria da educação tem viabilizado e garantido o acesso dos professores e alunos a essa tecnologia nas escolas?

 Eliana Cruz - A Secretaria Municipal da Educação, que recebe incondicional apoio da Prefeitura de Santana de Parnaíba, disponibilizou especificamente para este programa 15 computadores com Internet para o exercício das atividades  propostas, a cada escola participante. Lembrando que, cada Colégio Municipal, com seus gestores, professores locutores e professores parceiros, organizou e estabeleceu seu cronograma de horário e estabeleceu dentro da unidade escolar.

————————————————————————————————–     Eliana Maria da Cruz Silva – Secretária de Educação de Santana de Parnaíba - SP - Pedagoga, Especialista em Matemática e Gerente de Cidades.

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