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O ESPORTE COMO VIA PARA O DESENVOLVIMENTO HUMANO

Eduardo Hissayasu e Cléo Tibério Araújo

  

 

IAS - A Educação pelo Esporte possibilita desenvolver o potencial dos jovens apenas na área do esporte ou contempla o desenvolvimento de outras competências? Como?

Cléo - Toda a filosofia que embasou a construção da Educação pelo Esporte enquanto uma solução em educação para o DH e todo o conjunto de princípios, valores e técnicas que embasa até hoje o trabalho dos envolvidos foi calcada nos 4 pilares da educação (Relatório Jacques Delors - UNESCO, “Educação um Tesouro a Descobrir”); o caminho que percorremos junto desses parceiros - universidades espalhadas por todo Brasil, locais onde são desenvolvidos os projetos que refletem a prática concreta do trabalho - nos permitiu, então, (e isso ocorreu com todos os outros programas do Instituto Ayrton Senna) a tradução destes pilares em desenvolvimento real de competências para vida (sociais, cognitivas, produtivas e pessoais). Assim foi se tornando claro, ao longo dos anos, o papel educativo assumido pelo esporte quando vestido com características e princípios inerentes ao Programa. Isso apenas como uma introdução para que possamos responder às perguntas. A Educação pelo Esporte contempla o desenvolvimento de todas essas competências, e aos poucos, ao longo dessa conversa, vamos poder concretizar isso por meio de exemplos reais da nossa prática.

Vamos partir daqui: o Esporte entendido como meio para educação, e não só como fim em si mesmo (como às vezes o entendimento comum nos força a abordar, até pelo poder que a mídia exerce em todos nós no que se refere ao Esporte). O objetivo do trabalho do IAS ao lado desses parceiros (hoje distribuídos em 14 núcleos/universidades, em 12 estados diferentes) sempre foi ir além, fazer do esporte o caminho e a ferramenta para que crianças e jovens pudessem ganhar a oportunidade da qual precisam para desenvolver seus potenciais. O esporte tem um poder transformador inegável, mesmo quando trabalhado no âmbito do rendimento, de competição. Aqui, além disso, ele tem o poder de desenvolver competências para vida, transformando crianças e jovens em indivíduos e cidadãos mais realizados em sua plenitude, e não só sob o ponto de vista físico, corporal. Essa é uma certeza que resulta de avaliação de resultados, amplamente realizada no Programa (desde 1998).

Concretamente, podemos dizer o seguinte: 1. como o a Educação pelo Esporte promove o desenvolvimento de competências sociais? Ela trabalha a solidariedade, a cooperação e o respeito ao outro e ao meio (por isso se diz do esporte ser promotor da paz); 2. como ela trabalha as competências pessoais? O esporte é promotor da realização individual, porque no momento em que amalgama corpo e pensamento, exige-se uma resposta integrada entre corpo, mente e emoção, e isso é um espaço para a promoção do autoconhecimento; 3. como desenvolve competências produtivas? O Esporte funciona como catalisador da criatividade e da capacidade de trabalhar em grupo; 4. por fim, como desenvolve competências cognitivas? Ele promove um salto natural para as questões ligadas à cultura, à regionalidade e às questões sociais e daí para a importância da leitura e da escrita, por exemplo, é um passo que se realiza de forma lógica e harmônica.

 

 IAS - No Brasil, podemos encontrar alguns atletas expoentes que conseguiram, através do esporte, sair da condição de pobreza em que nasceram. Você acredita que para que isso aconteça, o jovem deve ter um dom especial ou é possível que o esporte crie oportunidades para todos?

Cléo - É importante pensarmos o seguinte: quantos, dos milhões de meninos que jogam seu futebolzinho em campos de várzea por esse Brasil afora, têm realmente chances de se transformar em um Ronaldinho Gaúcho? Imagine se sempre vinculássemos o sucesso da vida de alguém ao tipo de sucesso conquistado pelo Ronaldinho? Será que é só assim que o esporte exerce seu poder transformador? Será que o esporte só promove transformação social quando coloca o indivíduo de talento quase genial no mundo do esporte de competição, quando transforma em estrela um indivíduo? É claro que isso é mágico, e é claro que pode acontecer (como já aconteceu) em um projeto social que trabalha dentro da filosofia da educação pelo esporte. Mas essa não é a regra, e por isso não podemos partir dela como preceito. O esporte que transforma não é só esse. O esporte pode também transformar a vida de um indivíduo no momento em que ele é vítima do desenvolvimento de competências que o apoiaram em toda vida, no momento em que isso fez com que seu desempenho na escola fosse melhor, na hora em que ele sonha e se projeta como alguém que quer e pode entrar para faculdade, por exemplo, ou no momento em que ele sonha em ser médico, dentista, professor etc. É esse o esporte inclusivo, que independe das habilidades motoras desse ou daquele para se transformar num campeão olímpico. E é essa a nossa regra. O garoto ou garota que despontam como estrelas, aqueles nascidos para o esporte, têm seu espaço. Mas todos os outros também têm.

 

IAS - Que valores podem ser trabalhados através do esporte para que tenhamos jovens autônomos, solidários, competentes e responsáveis?

Eduardo - As atividades esportivas mobilizam todas as dimensões do ser humano de forma integrada (psicomotora, cognitiva, emocional) e por isso se constituem numa via privilegiada para o desenvolvimento de competências. As escolhas e decisões tomadas durante a prática esportiva expressam os valores daqueles nelas envolvidos, dando ao educador o ensejo para o trabalho de valores de forma contextualizada, facilitando a reflexão sobre esses mesmos valores, a sua vivência e a sua adoção. Mais do que orientar a criança a adotar um determinado valor (respeito, solidariedade, perseverança etc) é preciso que as crianças localizem esse valor nas atividades e reflitam sobre a sua prática para, em seguida, perceber a necessidade de adotá-la, transpondo-a para seus vários âmbitos de vida (familiar, escolar, grupo de amigos etc).

 

IAS - Como é trabalhada a questão da competição?

Eduardo - A ação educativa está diretamente ligada aos princípios e aos valores daqueles que a executam. Pensando assim, a competição pode ser um ingrediente bastante pedagógico quando se é priorizado o desenvolvimento de cada um dos praticantes. Além do que, não há como negar a competição quando se trabalha com o esporte. No Programa, a auto referência e o progresso individual são os critérios utilizados para a avaliação - superar a si mesmo -, e não restringindo somente a vitória (resultado final) como critério de sucesso - superar o adversário. E, na competição, inserida neste ambiente educativo mencionado anteriormente, abre-se a possibilidade de discutir e refletir sobre questões importantes para o amadurecimento dos educandos tais como a tolerância, a frustração, a perseverança e a alegria da vitória.

 

IAS - Como são criadas oportunidades de aprendizagem dentro do Programa Educação pelo Esporte, do IAS e da Audi?

Eduardo - Toda ação educativa para ser, de fato, efetiva, deve ter intencionalidade. Assim, para criar oportunidades de aprendizagem dentro do Programa, tudo deve começar no planejamento. Nos projetos parceiros, o momento de planejamento é institucionalizado, o que garante que todos os educadores, num dia da semana, parem para refletir a sua prática, discutir as demandas do grupo e planejar soluções. Por exemplo: se os educandos apresentam dificuldades em ver a importância das regras para um bom convívio/andamento da atividade, que tal propor uma partida de queimada sem, ou com poucas, regras? Para se trabalhar a importância do papel de cada um num grupo, que tal discutir e combinar as regras do jogo? Para se trabalhar resolução de problemas, que tal sugerir que os educandos proponham esquemas táticos para a partida? Neste espaço educativo o educador é o mediador do processo de aprendizagem, cabe a ele ter a sensibilidade e o “jogo de cintura” para identificar temas que despertem nos educandos a vontade de aprender.

Outras oportunidades de aprendizagens, agora, num âmbito mais macro, criadas dentro do Programa, são: as formações na solução em Educação pelo Esporte, ministradas por agentes credenciados pelo IAS, as trocas de experiências e textos por intermédio do site e da revista “Campeão de Cidadania”, os Encontros de Educadores, organizados regionalmente pelos nossos parceiros, ou nacionalmente pela coordenação no IAS. E tudo isso sempre com a participação da Audi (que acompanha a construção do Plano de Ação do Programa para o ano) e como intuito de dialogar o esporte como ferramenta de desenvolvimento humano.

 

IAS - Você acha que a Copa do Mundo pode influenciar, positiva ou negativamente, no entendimento do esporte como ferramenta de promoção de desenvolvimento humano e social? Por quê?

Cléo - Essa pergunta é muito boa. Primeiro porque nos permite a retomada das questões abordadas na primeira questão e segundo porque com ela podemos dar mais concretude ao nosso discurso até aqui.

Primeiro é importante falarmos um pouco sobre a questão das diferentes modalidades esportivas disponíveis para um trabalho de Educação pelo Esporte. Muitas vezes nos perguntam: quais são as modalidades que os projetos utilizam com as crianças? E muitas vezes a melhor resposta é: qualquer uma. Afinal, como se decide se esta ou aquela modalidade servirá de palco para o trabalho? A definição pode surgir em função da própria demanda dos educandos, pode também vir como resultado de um tema trabalhado no projeto interdisciplinar* planejado para aquele período, ou pode ainda ser resultado de disponibilidade de equipamentos, material e espaço (que não precisam ser oficiais, pois se trabalha muito com jogos e materiais adaptados, tais como um futebol com 4 gols ou uma espada confeccionada a partir de um cabide para a criançada conhecer a esgrima!). O princípio por trás dessas decisões (sobre qual modalidade deve ser escolhida) é que é o principal: quanto mais modalidades se apresentarem para as crianças, melhor. Isso democratiza o espaço. Dar para as crianças e jovens a chance de conhecerem esporte, saberem sobre esporte, também é um dos objetivos do Programa.

Isso posto, caímos então no futebol e na Copa do Mundo. Não há como negar que o futebol é o esporte mais popular, mais ligado à cultura e a história do povo brasileiro. Além disso, a Copa do Mundo em si é um mar de oportunidades para o trabalho com projetos interdisciplinares. A partir dela pode-se criar uma gama quase infinita de temas, tais como: que nações são essas que participam das copas, onde nasceu o futebol, o que é Fair Play, etc.

Muitos projetos se utilizam da mobilização e entusiasmo provocados pela Copa do Mundo para desenvolver atividades esportivas ligadas ao futebol. O objetivo é fazer da modalidade um instrumento para estimular o trabalho em grupo, a criatividade, a cooperação, o respeito dentro da sala de aula para melhorar o desempenho escolar. As competências, enfim.

O futebol é uma modalidade que consegue reunir todos esses aspectos. Podem-se fazer várias correlações entre o jogo e o dia-a-dia das crianças, por exemplo. Como? A autoridade do árbitro: pode ser comparada às leis que precisam ser cumpridas na nossa sociedade. O capitão da equipe, que deve ser ouvido e respeitado: se comparam aos nossos pais, avós, tios e irmãos. A delimitação do espaço: desenvolve no aluno noções de matemática e geometria. Até questões de agressividade: o futebol pode oferecer formas saudáveis de resolução de conflitos. A Copa do Mundo é um prato cheio enquanto tema gerador de projetos interdisciplinares. Permite aos educadores um jeito diferente para estimular o gosto pela leitura, por exemplo - as crianças podem ser solicitadas a pesquisar sobre a história dos jogadores da seleção brasileira, um tema super estimulante.

Uma das atividades mais ricas para explicar como se trabalha o futebol com o olhar da Educação pelo Esporte é Jogo da Vida, criado pelo Projeto Córrego Bandeira, nosso parceiro na UFMS - Campo Grande. Nele trabalha-se muito a questão dos valores, relacionando-os ao futebol. Antes dos alunos jogarem uma partida real, é feito um jogo de tabuleiro. As crianças são solicitadas a fazerem a escalação das suas seleções, mas ao invés de escolher dentre nomes verdadeiros de jogadores, elas escalam os valores que querem colocar em campo: honestidade, justiça, honra, respeito, amizade, entre outros. Daí, cada grupo dispõe esses valores no tabuleiro (que é um campo de futebol) e podem escolher também a sua estratégia tática - por que a justiça na defesa? Por que a honestidade no meio de campo? E assim por diante. Feito isso, e após uma discussão com os educadores, as crianças decidem se vão querer o futebol tradicional ou se vão querer criar um jogo novo. Diferentemente do trabalho tradicional realizado em esporte, onde vencer é o principal objetivo, todos os projetos que integram o Programa não têm a competição como foco central. É muito melhor promover a participação de todos que a competição em si. Tendo isso como princípio, os alunos criaram o Futepar: uma nova modalidade esportiva baseada no futebol. Nela, as crianças confeccionaram camisetas com espaço para duas cabeças e mangas largas o suficiente para que possam jogar em dupla. Os tradicionais 22 jogadores transformaram-se em 44. Os próprios alunos construíram as novas regras. Além do jogo ser muito divertido, existem vários conceitos que são trabalhados, como respeitar o ritmo do colega, aprender a dividir o mesmo espaço e superar dificuldades.

Assim como o Futepar, existem inúmeros outros jogos criados ao longo dos anos, com os mais diferentes tipos de modalidades. Mas vale lembrar: o futebol convencional, com os 22 jogadores, os 45 minutos de cada tempo, escanteios e laterais, também é trabalhado. Nesse caso, qual a diferença desse jogo no Programa e em qualquer outro lugar? O papel do educador.

É o educador, formado dentro da Educação pelo Esporte, quem carrega em quadra, em campo o maior diferencial do Programa. É ele a principal peça para que um projeto voltado ao esporte promova o efetivo desenvolvimento das pessoas. É no educador que está todo o poder de transformar uma atividade em algo que, de fato, transforme potenciais em realidade. O início e o fechamento de uma atividade - seja ela um jogo, uma brincadeira, a vivência de uma modalidade esportiva com todas as suas regras ou adaptada - é que dão a ela o caráter da educação pelo esporte.

 

*Nota: um dos princípios da Educação pelo Esporte é o trabalho por projetos interdisciplinares. Por meio deles é que se torna possível agregar os diferentes profissionais envolvidos nos projetos, que vêm em sua maioria da Educação Física, mas também de outras áreas de conhecimento (graças à parceria com a universidade), tais como a Arte, a Saúde (Psicologia, Medicina, Odontologia etc), a Pedagogia, entre outras.

Nota 2: o livro Educação pelo Esporte - Educação pelo Esporte para o Desenvolvimento Humano - Editora Saraiva, traz inúmeros exemplos de atividades e intercala a teoria e a prática desse trabalho de forma a ajudar aqueles que quiserem apostar nessa solução em Educação.

 

Eduardo Hissayasu e Cléo Tibério Araújo

 

Para mais informações sobre o Programa Educação pelo Esporte, acesse :

www.educacaopeloesporte.org.br

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