BULLYING ESCOLAR
IAS - Na sua opinião, quais as maiores causas dos casos de bullying dentro da escola? Onde mais esse conflito pode se manifestar?
Geane de Jesus - O bullying não é um fenômeno novo, na história do estabelecimento das relações humanas é perceptível a presença das ações de opressão e coerção entre os mais fortes e mais fracos, seja física, verbal ou psicologicamente falando. É uma ação que não tem idade, é presente entre os grupos de jovens, crianças e adultos. Nós, humanos agimos pela razão e emoção, e estas duas esferas da nossa personalidade tem bastante influência de formação a partir dos estímulos ambientais e orientações dos contextos em que nos encontramos. Nesse caso, citar um aspecto específico de causa é complicado, mas eu diria que o primeiro ponto de atenção deve ser direcionado à posição que as crianças/jovens assumem diante do outro, ou seja, quando usam a força para conseguir algo, quando sentem certo prazer em oprimir, menosprezar, coagir, também quem assume a condição de vítima deve receber apoio, pois cada organismo pode reagir de forma inesperadamente distinta quando ao logo do tempo é receptor de ameaças, humilhações públicas e/ou silenciosas, seja porque é gordo, magro, portador de necessidades especiais, ou seja, quando é (ou estar) diferente.
Esses conflitos quando não bem resolvidos nos anos iniciais do desenvolvimento do indivíduo podem se perpetuar, pois como já é sabido, toda nossa experiência nos primeiros grupos e relações, ainda na infância, inscrevem-se como um modelo padrão de relação que iremos estabelecer na idade adulta, então é comum percebemos pessoas que assumem a condição de agressor ou de vítima em vários ambientes onde exista relação de mando – obediência, ou de quem estabelece/monitora as regras e de quem tem por função cumpri-las. Nesse caso, é possível perceber tais aspectos em empresas, família, instituições diversas, até mesmo entre diretor-professor, professor-aluno, professor-professor, etc..
IAS - Diante dos seus estudos e pesquisas sobre esse tema, que distúrbios emocionais a criança ou jovem pode desenvolver a partir do bullying? Quais as interferências na construção psicológica dos envolvidos?
Geane - Os envolvidos no bullying podem desenvolver distúrbios distintos, as vítimas, geralmente as mais fragilizadas, por possuírem uma construção egóica deficitária, podem se isolar desenvolvendo fobias sociais, que conduzem ao isolamento, quadros depressivos, síndrome do pânico, ou chegar ao extremo da tolerância, e se revoltar contra seus agressores, e principalmente contra os espectadores, ou seja, aqueles que sabem, mas se omitem. Temos como exemplo as várias reportagens sobre acontecimentos de alunos, com histórico de isolamento, que cometem assassinato coletivo seguido de suicídio em escolas. Já os agressores, perpetuam sua fórmula de sucesso: conseguir tudo pela força ou pela supremacia de seu desejo em detrimento ao outro, são candidatos à delinqüência, a formação de gangues e liderança de puro autoritarismo. São indivíduos que não tiveram controle de seus desejos, muitas vezes, advindos de uma educação de extrema permissividade, ou de uma educação pautada na violência familiar.
IAS - Uma vez diagnosticada e confirmada uma situação de bullying, que medidas devem ser adotadas, pela escola?
Geane - É necessário que a escola procure pautar suas ações através do diálogo e da informação. Primeiro é preciso formar e informar a comunidade escolar sobre o assunto, desde o porteiro até o auxiliar - administrativo. Depois, é preciso investigar o contexto familiar do agressor, para saber qual o parâmetro de educação que os principais responsáveis utilizam na formação/orientação dos filhos. Conversar/orientar o agressor sobre seus atos em relação ao grupo, a si e às vítimas que elege. E em muitos casos é necessário buscar ajuda de outros segmentos como Conselho Tutelar ou assistência psicológica de orientação familiar. Em relação à vítima, procurar saber quais seus medos e percepção de si em relação ao grupo, e também atentar-se, muitas vezes, para o comportamento que faz com que um aluno se torne vítima, a roupa que está suja, o cabelo que não foi arrumado, (tais questões não justificam a agressão, mas tornam muitas vezes um aluno símbolo de ridicularização) e, é claro, orientar a família. Outro detalhe imprescindível é não ignorar que isso acontece no âmbito escolar, não tolerar a humilhação, coerção, ameaças como bases das relações entre os alunos, por isso é preciso vigiar, observar e desenvolver em seus espaços projetos que promovam debates sobre o assunto, sobre valores importantes que viabilizam a convivência e respeito mútuo entre os indivíduos. Ou seja, transformar os demais em aliados e não em espectadores passivos, que assistem a tudo e não se manifestam e, muitas vezes, instigam à agressão. Mas só é possível tal ação se a escola também estiver pautada nesses valores, então, como sempre reafirmo, não vale a prática do “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”!
IAS - Artes marciais, filmes violentos e videogames, podem influenciar a criança e o jovem a prática agressiva, funcionando como motores do bullying?
Geane - A base de solidez de um bom caráter, ainda é a boa educação, é claro que hoje, no campo da psiquiatria existem muitas discussões sobre até onde vai o alcance da influência hereditária em relação aos estímulos ambientais. Porém, enquanto não chegam a um consenso, vale pautar-nos pelo que presenciamos em nossas escolas. Em meus 14 anos de educação escolar, percebo a necessidade de que as crianças/jovens estejam sob um olhar “competente” para lhe orientar em relação aos excessos de estímulos diversos que lhe são oferecidos pelo “mundo”. Nesse caso, o olhar competente pressupõe um mediador que não tenha problemas de conduta social, caso isso ocorra, que referência essa criança terá? Por isso, tais atividades, podem sim estimular um quadro de bullying, quando não supervisionados por um adulto responsável. Pois, seja em qualquer classe social, não são apenas jogos, filmes, que possivelmente causam tal transtorno, porém também o dia - a - dia na família, um carinho que não recebe, um sinal de segurança, um vínculo de afeto que não existe do filho com o pai e/ou mãe. Vivemos em uma sociedade em que os sentimentos, o autoconhecimento não são valorizados. As pessoas vivem a partir dos seus anseios querendo a todo instante mostrar superação da razão, mas irracionalmente não se doam, não sabem dar, nem receber afeto.
IAS - É possível traçar o perfil de um potencial agressor e de um potencial agredido? Como detectar e tratar o distúrbio?
Geane - As pesquisas apontam três envolvidos no bullying: a vítima, o agressor e os espectadores. A vítima, geralmente são indivíduos cabisbaixos, com autoestima comprometida, não conversam muito, são tímidos, ou seja, sobressaem-se de alguma maneira: o biótipo físico que não se encaixa nos malditos padrões (gordo, magro, deficiente, míope, etc.) ou quando são muito inteligentes, estilo nerds, ou quando são desleixados na aparência e/ou higiene (devido falta de atenção da família). Por terem consciência da sua dificuldade de adaptação social e de não se aceitarem a partir de sua diferença, eles se isolam, e se fragilizam diante do outro.
O agressor usa de violência física, verbal e psicológica para impor sua vontade, exercem liderança num grupo, geralmente é o deflagrador de confusões, tumultos e humilhação de outrem. Nem sempre gostam de ser contrariado, vão de encontro às regras propostas e não são adeptos ao estudo, mesmo que, às vezes, apresentem bom desempenho cognitivo.
Os espectadores, são os que vêem a tudo, acompanham as investidas de agressão, mas não denunciam, nem tomam partido de defesa, muitos inclusive, chegam a incitar a ação do agressor. Alguns se omitem por medo de ser a próxima vítima, outros por não terem muito bem definido o seu papel enquanto partícipe num grupo social. Outros ainda, porque gostam de fazer parte do grupo mais “forte”, porém não tem tanto espírito de liderança para desencadear e sustentar uma agressão então fazem coro ao grupo do agressor.
Em relação a tratamentos possíveis, tanto o agressor quanto a vítima, precisam de acompanhamento de orientação educacional, na escola, e tratamento psicológico. A vítima para fortalecimento do seu ego ao superar o elemento em sua psiquê que gera a sua autonegação o que refletirá na elevação da sua autoestima. O agressor precisa de sublimação de toda a violência que emana de suas ações, para tanto é preciso diagnosticar os causadores de tal inclinação, partindo disso trabalhar a construção do ego desse indivíduo. A família de ambas as partes precisa do mesmo suporte.
Os espectadores precisam de orientação e acompanhamento em relação aos seus atos e responsabilidades sociais, o que pode ser gerenciado por projetos direcionados na escola, ou grupo de apoio e orientação educacional.
Todas essas ações requerem articulação entre escola e outros segmentos como conselho escolar, acompanhamento de orientação educacional e suporte psicológico e/ou psicopedagógico.
IAS - A escola tem como desenvolver ações preventivas contra o bullying? Se sim, como seriam essas ações?
Geane - Em síntese do que já informei aqui na questão três, a escola deve ter total ciência de quais valores e missão respaldam seu projeto pedagógico. Depois, viabilizar (in) formação aos educadores, demais servidores da escola e pais. Estas formações podem ser palestras com profissionais da área da saúde como psicólogos, psiquiatras, ou educador -pesquisador que tenha dados reais sobre o assunto, para alertar sobre a situação. Isso porque, dentro da minha experiência percebo que os profissionais da educação se assustam quando “aquela simples brincadeira” entre grupos é sinalizada como bullying que hoje é fonte de preocupação no campo da saúde mental e social. Reuniões temáticas com pais, sobre educação e limites. Ou caso não tenham tais recurso, propor grupos de estudo/discussão dentro da escola, pois há referência bibliográfica disponível sobre o assunto. Projetos ou miniprojetos no espaço escolar sobre valores como: respeito mútuo, paz, tolerância, ser diferente, etc. Oficinas, teatro, ações que permitam aos alunos exporem seus medos, suas opiniões sobre o assunto, como uma espécie de terapia ocupacional, ou seja, transformar os alunos em aliados contra esse mal. Monitorar os vários espaços da escola, mesmo fora dos intervalos entre as aulas. E se policiar em termos de ações, tendo cuidado, por exemplo, com a forma como um professor se dirige a um aluno, evitando apelidos, termos de menosprezo, etc., pois o professor é quem está na linha de frente, quem estabelece contato direto com o aluno e, muitas vezes por falta de cuidado com essa questão, o aluno teme conversar com o professor e prefere se calar.
Geane de Jesus Silva,
Pedagoga, psicopedagoga, psicanalista, professora da rede pública do DF.
Endereço eletrônico: enaeg@hotmail.com

16 de dezembro de 2009 às 9:34
Adorei sua entrevista.Não é muito de se surpreender vindo da Professora Geane,as respostas foram dadas por uma profissional que entende do assunto.
Se todos profissionais tivesse o ponto de vista, capacidade e a inteligência dela estes jovens e a população carente teria um mundo melhor.
Parabéns Geane,
16 de dezembro de 2009 às 13:08
Saudades. Parabéns pela entrevista, lhe admiro e sei que você é uma execente profissional.
Bjusss
18 de dezembro de 2009 às 15:21
Ótima entrevista!! Se todos os profissionais da educação tivessem esse olhar diferenciado para a questão do BULLYING, não teríamos tantos alunos com problemas emocionais!! Parabéns!!
18 de dezembro de 2009 às 16:04
Bela entrevista!
Essa questão de BULLYING tem que ser análisada por profissionais como Geane e dentre outros renomados no assunto e abranger para toda a população. Caso contrário a mundo ficará mais difícil do que já é.
20 de dezembro de 2009 às 18:34
Geane, sua entrevista é muito esclarecedora. Infelizmente a prática de bullying está presente em muitas instituições escolares, mas felizmente temos profissionais que se preocupam com a temática e propagam seus conhecimentos acerca da mesma. PARABÉNS! Espero que os educadores do nosso imenso Brasil leiam sua entrevista e ajudem a combater bullying. amo você!!!
21 de dezembro de 2009 às 13:43
MULHER, QUE ORGULHO! Adorei. sei que é só o começo de uma linda sequencias de sucesso que a vida te reserva. beijos. to sempre em BSB, de noticias
29 de dezembro de 2009 às 16:01
As respostas foram convencente e claras.É de pessoas como vc que precisamos para alertar toda a população.
Sinto-me orgulhosa de vc.
Um forte abraço
29 de dezembro de 2009 às 18:08
muito bom as suas respota,a educaçao no brasil precisa de mais pessoas como vc,
vc tem o dom, vc usa inteligecias multiplas parabens
25 de fevereiro de 2010 às 23:06
Muito bem sua entrevista foi otima é muito importante para a carreira docente deveria ser lida por todos os profissionais da educação
beijos
12 de julho de 2010 às 14:55
eu acho que esse caso do bullying tem que ser resouvido mas os textos poderiam ser menor pois os alunos quando lem querem algu mas e especifico e pequeno
12 de julho de 2010 às 15:02
essa reportagem é muito unteressante pois os jovens tem que ser mais educados tentarem ser amigos em ves de cometer bullying