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EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA E A FORMAÇÃO CONTINUADA

Nara Maria Pimentel

Nara Maria Pimentel
Fez mestrado em educação pela UFSC , doutorado em engenharia de produção e sistemas, estágio de doutorado na Universidade Aberta em Lisboa. Participou da criação e implementação do Programa Nacional de Formação de Professores, coordenado pelo MEC/CAPES chamado Universidade Aberta do Brasil - UAB, Consultora em EAD e Avaliadora externa de cursos a distância, contratada pela UNESCO no Ministério da Educação.

1. Na sua opinião, como o professor é impactado pela presença cada vez mais complexa das novas tecnologias da informação e comunicação?

Nara Maria Pimentel - Creio que o impacto das Tecnologias de Comunicação e Informação - TIC na educação é, na verdade, um aspecto particular de um fenômeno muito mais amplo, relacionado com o papel dessas tecnologias na sociedade atual. Já assistimos há algumas décadas o surgimento de uma nova forma de organização social, política, econômica e cultural da sociedade. Nesse sentido, há que se considerar o papel da docência como um dos pilares para a construção desse cenário de mudança tendo em vista que os professores são peças fundamentais do processo de melhoria da sociedade. A educação indica complexos desafios a serem superados tanto pelos alunos como pelos professores. A imagem de um professor transmissor de informação, protagonista central das trocas entre seus alunos e inflexível na forma de organizar os conteúdos curriculares começa a entrar em crise diante de um mundo conectado principalmente por telas de computador. Dessa forma, vejo que um dos principais impactos é na mudança radical do papel do professor. Esse professor terá que ser capaz de lidar com a autonomia do estudante e sua no planejamento das atividades de ensino; terá que ser capaz de interagir com grupos socialmente heterogêneos; e principalmente ser capaz de utilizar recursos e instrumentos de maneira interativa e integrada. Esse aspecto, diz respeito ao fato de que desenvolver ambientes de ensino aprendizagem para essa nova era, seja em formato virtual ou de caráter híbrido (blended learning), além de ser uma tarefa complexa, devido à quantidade, à qualidade e à rapidez das mudanças, constitui um esforço importante e de longa duração para o coletivo dos professores.

2. No contexto atual, onde a informação evolui rapidamente, qual a importância da formação continuada para o professor?

Nara Maria Pimentel - No contexto da sociedade contemporânea, as TIC, para uso educacional passaram a ser um suporte fundamental beneficiando um universo cada vez mais amplo de pessoas. Isso pressupõe um professor atualizado técnica e pedagogicamente para o uso das mesmas. A formação continuada é fundamental para que as TIC sejam exploradas em todas as suas potencialidades. Infelizmente o uso das TIC no ambiente escolar são extremamente baixos. Ainda temos equipamentos obsoletos, péssimas condições de manutenção e acesso as TIC que em geral são pouco utilizadas com fins especificamente educacionais. Pode-se dizer, sem exageros, que o investimento na formação continuada é a única maneira de minimizar a defasagem entre a elevada valorização que os educadores expressam e tem das TIC e o uso limitado que dá a elas em sua prática docente.

3. Em que medida a Educação a Distância é uma alternativa para a formação continuada de professores?

Nara Maria Pimentel - Eu sou uma entusiasta da EaD. Ao longo da minha carreira docente tive oportunidade de participar de pesquisas, coordenar cursos a distância e principalmente participar da criação e implementação de um Programa Nacional de Formação de Professores, coordenado pelo MEC/CAPES chamado Universidade Aberta do Brasil - UAB . Esse programa, desde 2005 oferta cursos superiores a distância, em parceria com Universidades Federais, Estaduais e Institutos Federais de Educação para mais de 200.000 docentes. Cabe ressaltar que, no Brasil o número de professores que lecionam no ensino básico sem diploma de curso superior, segundo o Censo Escolar do Ministério da Educação somam 636 mil nos ensinos, infantil, fundamental e médio. Apesar das possibilidades atuais, temos que legitimar uma política pública para o uso das TIC na formação docente. Assim, as TIC na educação poderão contribuir para elevar a qualidade da educação presencial e a distância. Falar de EaD é falar de educação. Há, no meu entendimento, um equívoco em relação a algumas abordagens sobre EaD, principalmente quando se referem a EaD como uma outra educação. Minha prática, enquanto educadora tem demonstrado que quando não se observa aspectos fundamentais do processo educativo como a escolha de tecnologias adequadas aos objetivos de aprendizagem; a organização e apresentação do conteúdo baseado em critérios de qualidade e controle de aprendizagem têm grandes chances de fracassar quanto aos objetivos de aprendizagem. Falta no Brasil, um sistema de avaliação dos cursos a distância que leve em conta as especificidades da modalidade a distância que difere e muito do presencial. Não temos dúvida da importância do uso das tecnologias na educação e da modalidade a distância para o atingimento dos objetivos da educação nacional ao mesmo tempo em que reconhecemos os avanços neste campo.

A LDB nº 9.394/96 instituiu a Década da Educação, finda a qual “somente serão admitidos professores habilitados em nível superior ou formados por treinamento em serviço” (artigo 87§ 4º). A mesma Lei também indicou como um dos eixos de atuação “realizar programas de capacitação para todos os professores em exercício, utilizando também para isso os recursos de educação a distância (artigo 87§ 3º, inciso III). Uma das metas do Plano Nacional de Educação diz respeito a “ampliar os programas de formação em serviço que assegurem a todos os professores a possibilidade de adquirir qualificação mínima exigida pela LDB (PNE, 2000). O desafio cresce quando outras variáveis são identificadas no problema:

• expressiva quantidade de jovens e adultos sem oportunidade de formação;

• problemas na escola básica brasileira: na área de infraestrutura, gestão da escola e formação de professores, refletidos em valores baixos para o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica-IDEB;

• o conhecimento que cerca de um em cada quatro professores em exercício na rede pública de ensino precisa ser capacitado, seja porque não possui formação inicial, seja porque é um bacharel e leciona em disciplinas afins (como exemplo, o médico que ensina biologia no ensino médio), seja o professor que possui a licenciatura, mas atua em área distinta de sua formação.

A educação superior indica complexos desafios a serem superados. Em que pese a expansão vivenciada pelo sistema, sobretudo na última década, os indicadores revelam que temos um longo caminho a percorrer em relação ao acesso a esse nível de ensino, apesar do aumento considerável de novas instituições públicas de ensino superior e do aumento dos cursos.

4. Quais são os requisitos básicos necessários ao professor que deseja fazer uma formação a distância?

Nara Maria Pimentel - É preciso estar aberto ao novo, a inovação e principalmente estar preparado técnica e pedagogicamente para o uso das TIC. Também é preciso tentar utilizar as TIC na educação escolar com a finalidade de tornar mais eficientes e produtivos os processos de ensino e aprendizagem, aproveitando os recursos e possibilidades que as TIC oferecem. Também é necessário que desenvolva competências associadas com a obtenção da informação; aprender a estudar com novos materiais e metodologias baseados nas TIC; ter disciplina; organização e persistência. Além disso, inclui o envolvimento de outras dimensões como as afetivas, as metacognitivas ou de autorregulação. Motivação também é um requisito fundamental que deve ser promovido pelos conteúdos e atividades promovidas no curso. Outro requisito básico é a organização espacial e temporal dos conteúdos.

5. Qual é o maior desafio para quem faz uma formação a distância? Que competências precisam ser desenvolvidas para superar esse desafio?

Nara Maria Pimentel - O maior desafio é formar professores com as TIC e a utilizar adequadamente as TIC na educação. Infelizmente a maioria dos cursos a distância que lançam mão de ambientes virtuais de aprendizagem, reproduzem as mesmas situações de aprendizagem do ensino presencial, como se isso, garantisse sucesso. Minha experiência profissional tem mostrado que na EaD não se pode simplesmente importar o modelo de ensino do presencial. É preciso mudar a forma de dispor os conteúdos, de avaliar, de interagir, enfim, é preciso mudar a forma de ensinar e também de aprender. Professor e aluno precisam mudar paradigmas para então fazer uso apropriado das TIC. Isso vale para o ensino a distância e o presencial. Já avaliamos muitos cursos à distância e a maioria se reveste do “novo” apostando no artefato técnico mas com as “velhas” fórmulas.

Outro desafio é romper a lógica paternalista do sistema de ensino que tradicionalmente não contribui para o auto-aprendizado. Vale ressaltar, que se trata de um desafio a ser superado somente nos cursos a distância, mas, também nos cursos presenciais.

As principais competências para superar esses desafios é possibilitar acesso as TIC; conhecimento técnico e pedagógico das ferramentas tecnológicas; conhecimento do conteúdo a ser ensinado, conhecimento das teorias de aprendizagem para compreender como se aprende mediado pelas TIC. Outro aspecto é desenvolver políticas de gestão para a adoção de princípios pedagógicos no planejamento dos processos educacionais que se apoiam nas TIC. Nesse sentido, é preciso esclarecer que a introdução da tecnologia na educação não constitui em si, um elemento inovador e transformador das práticas educacionais, que levariam, inevitavelmente, à sua modernização e qualificação. A incorporação das TIC não transforma, nem melhora automaticamente os processos educacionais, mas com aporte teórico e bons professores podem transformar o cenário educacional do Brasil.

4 comentários para “EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA E A FORMAÇÃO CONTINUADA”

  1. Vera Luce Monteiro disse:

    Parabéns pela entrevista.
    Já participei de Curso a Distância e atualmente estou participando do Curso de Formação Continuada em Conselhos Escolares (CFCE), com vistas à melhoria da qualidade social da educação básica ofertada nas escolas públicas.

  2. Adm. joaquim dias noronha jr disse:

    Bom dia Prof. Nara.
    parabéns pelo seu trabalho, ficou ótimo.
    prof. joaquim. ifam-campus presidente figueiredo.
    Abraços

  3. Professora nara disse:

    Agradeço a participação e colaboração!!! Fico satisfeita ao perceber que pessoas comprometidas com uma educação emancipadora façam parte desta rede
    Um abraço

  4. niuva P. de Araújo Silva disse:

    Bom dia, professora Nara
    Muito bom seu trabalho, parabéns!
    Sei que não é fácil a Ed. à Distância, já fiz curso à Distancia e sei o quanto é difícil. Mas não fazemos nada com facilidade. Hoje vejo a Ed, à Distância uma das melhores fonte de atendimento.
    Abraços!!!!!!!!!!!!!!

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