GESTÃO CRÍTICA E CRIATIVA DAS TICs NA ESCOLA
Celso Vallin
Quando se discute o uso das TIC (Tecnologias da Informação e Comunicação) com gestores de escolas públicas do ensino fundamental e médio, e com pessoas dos sistemas públicos de ensino, surgem temas e situações-problema. Concepções e crenças podem ser percebidas.
É comum que se fale da importância da escola ser crítica, e colaborar para a inclusão das classes populares na sociedade, dentro de situações de maior justiça social, do que as que vivemos hoje no Brasil. Mas, muitas vezes falta levar o pensamento para a ação prática e concreta. Falta questionar: “Como as TIC podem ser usadas para ajudar nesses ideais?”, ou “Que maneiras de usar colaboram para conservar e preservar as estruturas sociais injustas em que vivemos, e quais maneiras e usos colaboram para uma formação mais cidadã e solidária?”. No Brasil hoje, em todos os “cantos” do país, encontramos experiências e ações pedagógicas avançadas, mesmo se comparadas ao uso que fazem das TIC em outros países, e são bons exemplos para serem observados. São respostas práticas a estas questões. Mas é preciso organizar encontros e garimpar entre os relatos. Algumas dessas experiências e idéias podem ser vistas aqui. Sem rodeios, quatro aspectos serão destacados.
1) Melhorar os canais de comunicação entre os órgãos do sistema de ensino (secretarias de educação, diretorias regionais, núcleos de apoio pedagógico e outros) e as escolas, cultivando um diálogo mais próximo e solidário, poderá colaborar para a escola cidadã. Isso porque o diálogo favorece a ação autoral, e ajustada às especificidades de contexto de cada escola. Ao contrário, a dificuldade de diálogo favorece a ação centralizada e burocrática. É comum que a comunicação entre essas partes seja formal, burocrática e com dificuldades para aprofundamento nas discussões. Pode-se questionar ainda: “Como estreitar esse diálogo?”. Primeiramente é preciso que haja a percepção dessa necessidade e a intenção de buscar mudanças. Em seguida, além dos encontros e reuniões com presença física, pode ser criado um grupo (ou fórum) pela internet, para possibilitar novas opções de diálogo entre equipes gestoras, e pessoal dos órgãos do sistema de ensino (supervisores, assistentes pedagógicos, acompanhantes etc). Em cada estado ou município existem cargos e papéis diferentes e semelhantes. Muitos desses órgãos já têm um espaço na internet (página ou saite), mas podem criar opções de comunicação mais diálogal, mais próximas, mais imediatas e desburocratizadas. Esses espaços na internet não acontecem por si mesmos. Depois de criados precisam ser animados e cuidados. Mas o diálogo pela internet oferece possibilidades de defasar as mensagens no tempo, conforme a disponibilidade e ritmo de cada um. Na internet não há o peso das distâncias que o diálogo com presença física apresenta.
2) O incentivo ao uso de um ou outro “software” deve também ser considerado. Nos “softwares” abertos (ver Valente, 2001 e 1999 ) existem condições para que o aluno crie. Eles favorecem as propostas pedagógicas que desafiam o aluno e incentivam para que ele seja autor, envolvendo criatividade e pensamento crítico. Os “softwares” específicos, também chamados de “software educacional” na maior parte dos casos apresenta informações, explicações e ações que devem ser repetidas. Pode apresentar aplicações ou procedimentos que devem ser refeitos de maneiras diferentes. Eles ajudam a aprender e representam um avanço, principalmente em situações de maior carência, mas não favorecem muito o desenvolvimento da autonomia dos alunos. Percebendo isso, gestores escolares e pessoal do sistema de ensino (dirigentes, supervisores, assessores e outros) podem incentivar e facilitar o uso de um ou de outro tipo de “software”.
3) Olhando para a situação dos professores, a escolha de “softwares” a serem disponibilizados a eles, e usados nos cursos e capacitações oferecidos, também deve ser ponderada. Sempre que é requerida e incentivada a elaboração de planos e estratégias pedagógicas PELOS professores, está sendo favorecida a escola cidadã. Por outro lado, algumas “facilitações” que entregam propostas de “trabalho com aluno” já prontas e “mastigadas”, causam o conforto e resultado imediato, mas não estimulam o professor a ser autor de sua própria prática pedagógica: a aula (com ou sem TIC). As propostas prontas e “softwares” específicos (ou “softwares” educacionais) favorecem que existam mais e mais professores repetidores, ou aplicadores de processo.
4) As TIC também podem ajudar quando a equipe gestora busca melhorar a comunicação dentro da escola, e a transparência e publicidade das regras, decisões, horários, locais e responsáveis para ações programadas ou desenvolvidas, bem como opiniões, avaliações e considerações sobre essas ações. Há usos das TIC que podem colaborar para a transparência e melhoria das comunicações. São diálogos que acontecem por escrito. Para isso podem ser usados diferentes recursos de comunicação pela internet como: grupos, fóruns, salas de bate-papo, blogs etc. Estes meios são usados em acréscimo aos meios presenciais existentes e integradamente àqueles. Podem ajudar a aproximar professores de funcionários, buscar um diálogo mais próximo e solidário, aproximar equipe gestora de professores, alunos, pais. Estes recursos podem ser usados para quebrar preconceitos de classe entre os diferentes coletivos que convivem na escola, e isso colabora para uma escola mais cidadã. As conversas que acontecem pela internet, com mensagens escritas, têm um caráter diferente das conversas em presença física e por isso podem surpreender e ser usadas para quebrar preconceitos e superar dificuldades do presencial. São vistas as idéias e não as aparências das pessoas. O momento em que cada um escreve não precisa ser o mesmo - um pode escrever de manhã e o outro à noite. O tempo e ritmo em que cada um escreve é também particular, e por isso há pessoas que se sentem mais seguras e à vontade ao declarar suas idéias desse modo. Quando as pessoas não estão se olhando, ao vivo, as mais retraídas e envergonhadas sentem-se mais à vontade. Há outras diferenças entre o diálogo escrito e o falado. Isso não quer dizer que um é melhor do que o outro. Significa sim, que podemos tirar proveito dessas diferenças e usá-las em favor da melhoria da comunicação e transparência.
Na busca da escola cidadã, a equipe gestora pode ajudar o professor a questionar: “No uso que fazemos ou faremos das TIC, em aula, quem domina quem, aluno ou máquina?”, ou “Quem elabora as propostas e caminhos de estudo e trabalho? Será uma coisa ditada pela estrutura do sistema ou serão os alunos COM o professor, em acordo com o contexto, interesses e possibilidades?” e ainda “A relação entre professores e alunos nas situações de uso das TIC são definidas e pronto (centralizadas, padronizadas) ou são resultado de uma construção conjunta e dialogada entre os coletivos envolvidos?”
Entre as modernidades que sinalizam posturas avançadas, fala-se em mudança de paradigma na escola, em inclusão digital, na educação para um mundo digital, no uso das TIC como alavanca, e no cultivo de valores, mas é preciso que se tenha claro que valores são esses. Em sentido mais amplo, deseja-se que o uso das TIC favoreça o lado humano de nós mesmos e de todos. Para isso, cada situação precisa ter um espaço para que o aluno seja autor, e que o professor também o seja. Ser autor não tem aqui o sentido de negar ou desconsiderar o que já existe. A autoria sempre deve abrir espaço para a imitação e a reprodução. Mas ela privilegia a decisão crítica, e favorece as condições regionais e de contexto. Favorece também o desenvolvimento da autonomia: conhecimentos e habilidades gerais que poderão ser levadas para situações diversas. Ao mesmo tempo deseja-se cultivar a abertura à diversidade de idéias, de estilos, de cultura, de ritmos e habilidades. Isso irá refletir na escolha e uso dos “softwares” e nas propostas pedagógicas. Deseja-se um uso das máquinas que favoreça a convivência desse modo - aceitando, respeitando e valorizando as diferenças.
Ainda entre as experiências possíveis, há outros usos das TIC na escola, que devem ser percebidos e incentivados. Aquelas em que os alunos colaboram, em ações cidadã, de liderança, de parceria, sinalizam como um instrumento à mão dos educadores para lidar com os difíceis problemas de indisciplina profunda e de desagregação social que são cada vez mais freqüentes hoje. Por isso devemos valorizar as experiências em que existem alunos ajudando na rádio escolar, na produção de vídeos, na biblioteca, na manutenção da sala de informática e outras desse tipo. Essas parcerias e o incentivo ao desenvolvimento de lideranças, muitas vezes são o caminho para o resgate educativo de alunos tidos como perdidos.
No mundo em que vivemos hoje, para bem gerir o uso das TIC nas escolas é preciso distinguir informação de conhecimento e conhecimento pessoal do conhecimento da humanidade. Como isso influencia o uso das TIC na escola? Como as TIC podem ajudar a distinguir essas três coisas?
Se alguém tem uma enciclopédia não significa que a pessoa conhece as informações nela contidas. Indo adiante, a simples leitura da enciclopédia, ou mesmo a cópia de textos, não garantem ao sujeito a apropriação do conhecimento neles contido. Assim também são os livros didáticos, os “softwares” educativos e as páginas eletrônicas. Podem servir de apoio na construção de conhecimentos, mas o conhecimento pessoal não é só a memorização de objetos e das relações existentes entre eles. O conhecimento pessoal é uma rede de significados, que se liga com informações obtidas em vivências individuais, memória de sensações, sentimentos, significados e experiências que fazem parte da história de cada um. Assim, o conhecimento pessoal é construído historicamente e não dá para ser transmitido ou massificado. O professor que via a escola como uma transmissora de informações, e um lugar em que se aprendia a executar processos ou procedimentos, e o aluno como um receptor e reprodutor, poderá gostar mais dos “softwares” do tipo exercício e prática, do que dos “softwares” abertos. Mesmo quando pensam no “software” aberto, muitos educadores preocupam-se com a exposição e explicação, e o treinamento dos alunos e professores para os usos conhecidos e estabelecidos. Estão sempre organizando situações que, em última análise, favorecem o domínio dos mais poderosos sobre os mais frágeis, e as estruturas hierarquizadas, centradas nas classes e países dominantes. Por outro lado, quem vê o conhecimento como uma construção histórica e pessoal, incentiva o uso de “softwares” abertos, com situações desafiadoras, com a experimentação e descoberta, os ambientes de troca e colaboração, e as atividades críticas e criativas, tanto entre os alunos como entre os professores e outros coletivos da escola. Quem procura a construção do conhecimento individual e histórico, reconhece e bem explora no computador, e na internet, as vantagens da PLASTICIDADE ELETRÔNICA (edição eletrônica de textos, desenhos, números, imagens e outras linguagens, simbólicas ou não), tira proveito das possibilidades de comunicação a distância (e muitas vezes defasada no tempo), usa os registros para apoiar o pensamento (individual), ou a discussão (coletiva), e a organização de idéias. Assim, de um paradigma para outro (transmissivo e instrucionista, ou histórico e construcionista) tanto o jeito de se enxergar as TIC muda, como mudará o apoio que os gestores, dirigentes e supervisores darão aos demais educadores e alunos. A postura histórico-construcionista favorecerá a construção e reconstrução da escola cidadã.
Os usos das TIC não são todos semelhantes. Uns podem favorecer a cidadania enquanto outros favorecem mais a conservação das estruturas sociais vigentes.
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Valente, José Armando. A Informática Na Educação: Como, Para Que e Por Que. Disponível em 2001.
Valente, José Armando). Análise de diferentes tipos de software usados na educação. In: J. A. Valente (org.) O Computador na sociedade do conhecimento. Campinas, SP: UNICAMP/NIED, 1999. P. 89-110. Disponível em (Biblioteca Virtual / Publicações).